A Conexão Inesperada Entre Mineração e Inteligência Artificial
Durante o Web Summit Rio 2026, Mohammad Doostmohammadi, CEO da pH7 Technologies, apresentou uma perspectiva revolucionária sobre o futuro da inteligência artificial. Ao contrário do que muitos pensam, o desenvolvimento da IA não depende apenas de computação, chips e softwares avançados. Na verdade, está intrinsecamente ligado à disponibilidade de metais críticos, especialmente o cobre, que formam a base da infraestrutura necessária para sustentar essa transformação tecnológica global.
A empresa liderada por Doostmohammadi desenvolve processos inovadores de extração mineral utilizando eletrificação, reduzindo significativamente o impacto ambiental dessa atividade essencial. Essa abordagem representa um passo crucial para resolver um dos maiores desafios geopolíticos atuais: a disputa entre grandes potências pelo acesso aos minerais críticos que alimentam a indústria tecnológica.
A Demanda Exponencial de Eletricidade para Data Centers
Os números apresentados são impressionantes e preocupantes simultaneamente. Estima-se que até 2030, os data centers de inteligência artificial espalhados pelo mundo demandarão 945 terawatt-hora (TWh) de eletricidade. Atualmente, esse consumo é de apenas 415 TWh, o que significa que precisamos mais que dobrar a produção de energia em apenas quatro anos para atender aos data centers já aprovados para construção.
Para contextualizar essa magnitude, Doostmohammadi fez uma analogia pertinente: a infraestrutura necessária seria equivalente a abastecer um país como o Japão, a quinta maior economia mundial, por um ano inteiro. Essa demanda exorbitante não se limita apenas à geração de energia, mas também exige a construção massiva de redes de transmissão elétrica.
Infraestrutura de Transmissão: Um Desafio Monumental
Para distribuir toda essa energia aos data centers globais, seria necessário construir aproximadamente 80 milhões de quilômetros de linhas de transmissão nos próximos anos. Essa é exatamente a mesma dimensão das redes de energia que existem hoje em todo o mundo. Em outras palavras, precisamos duplicar toda a infraestrutura de transmissão global em um período extremamente curto.
O Cobre Como Insumo Crítico
Por trás de todos esses cabos de energia está o cobre, o principal ingrediente dessa trama tecnológica. O metal é essencial para construir e operar toda a infraestrutura de energia necessária para sustentar a revolução da IA. As projeções são alarmantes: até 2040, a demanda anual de cobre para infraestrutura e eletrificação de IA é estimada em 512 mil toneladas.
Para dimensionar esse número, basta considerar que a maior mina de cobre do mundo produz apenas 300 mil toneladas anualmente. Um único data center com capacidade de 1 gigawatt necessita de 150 mil a 250 mil toneladas de cobre apenas para montar a infraestrutura que o cerca, incluindo usinas geradoras, redes de transmissão, subestações e transformadores.
O Déficit Iminente de Cobre
Com os data centers de 100 gigawatts já aprovados para construção, serão necessárias 15 a 25 milhões de toneladas de cobre para suprir essa demanda. Isso representa décadas de produção de cobre pelos parâmetros atuais. Atualmente, a demanda global por cobre é de 30 milhões de toneladas, enquanto a produção fica em 28 milhões de toneladas. Nos próximos dez anos, o setor enfrentará um déficit de 16 milhões de toneladas anualmente.
O problema é que a demanda da sociedade por IA e tecnologia está crescendo exponencialmente, enquanto a oferta de novas minas avança lentamente. Leva em média 17 anos para que uma nova mina de cobre entre em operação, um prazo que simplesmente não temos disponível diante da urgência das necessidades atuais.
O Verdadeiro Desafio: Processamento, Não Oferta de Minério
Contrariamente ao que se poderia imaginar, a escassez de cobre não está relacionada à falta de minério no solo. Segundo Doostmohammadi, há cobre suficiente disponível em todo o planeta para ser extraído de forma eficiente. O verdadeiro gargalo está no processamento do metal. Minas em todo o mundo armazenam bilhões de dólares em cobre, ouro e outros metais críticos que não podem ser extraídos com a tecnologia atual. Esses depósitos, alguns explorados por mais de cem anos, aguardam novas tecnologias que viabilizem sua extração economicamente.
A Concentração do Processamento na China
Enquanto as minas de cobre estão geograficamente distribuídas entre Brasil, Chile, América do Norte e África, a concentração do processamento está radicalmente centralizada. Mais de 80% do cobre extraído no mundo é transportado por navio até a China para processamento final. Apenas 20% das operações de mineração conseguem processar o metal localmente.
Esse modelo é insustentável, pois envolve o transporte de minério bruto de um lado ao outro do planeta, com o cobre processado viajando novamente para alcançar os consumidores finais. Além dos custos ambientais e econômicos, essa dependência representa um risco geopolítico significativo, deixando a infraestrutura global de IA vulnerável a oscilações na política internacional.
A Solução: Mineralização Urbana e Processamento Localizado
Para superar esse dilema, a solução passa pela descentralização do processamento de cobre através de novas tecnologias que mantenham as operações próximas às fontes de minério e às regiões de demanda. A pH7 Technologies está desenvolvendo um processo eletrificado e modular que pode extrair cobre diretamente no local da mina, processando os resíduos de rochas de forma sustentável e eficiente.
A empresa está construindo fábricas em América do Norte, América do Sul, Europa, Sul da Ásia e África, levando a capacidade de processamento para onde existe oferta de cobre que não consegue ser extraída com metodologias convencionais. Essa tecnologia também pode ser aplicada na chamada mineração urbana, extraindo metais de equipamentos eletrônicos descartados, e no beneficiamento de minérios considerados de baixa qualidade.
A Ironia da IA na Mineração
Há uma ironia fascinante no processo: a inteligência artificial é utilizada para extrair os metais que a própria IA demanda. A pH7 combina eletricidade e química em um processo modular e digitalizado que extrai cobre na fonte, produzindo material pronto para qualquer processo de fabricação. Sensores e ferramentas digitais otimizam constantemente as operações, ajustando voltagem e amperagem através de data centers de IA dedicados ao processamento mineral.
Esse ciclo virtuoso minimiza o desperdício, maximiza a eficiência operacional e aumenta a produção de cobre necessária para garantir o futuro da inteligência artificial, criando uma solução simultaneamente tecnológica e sustentável para um dos maiores desafios da próxima década.
