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Hugo Bonèmer dirige e interpreta o vigarista Tom Ripley em adaptação teatral inédita no Brasil

Hugo Bonèmer dirige e atua como Tom Ripley em adaptação teatral inédita de Patricia Highsmith. Estreia em abril no Rio de Janeiro com reflexão sobre crime e moralidade.
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Amanda Clark

A Itália dos anos 1950 se torna palco para uma história de obsessão, crime e identidades enganosas. "O talentoso Ripley", romance clássico de Patricia Highsmith publicado em 1955, ganha sua primeira adaptação teatral brasileira a partir deste sábado (4) de abril, no Teatro Gláucio Gill, na Copacabana. A montagem reúne Hugo Bonèmer e Francisco Paz em uma produção que promete reinventar a narrativa icônica que já conquistou o cinema e a televisão, incluindo a versão cinematográfica estrelada por Matt Damon, indicada a cinco prêmios da Academia.

A trama segue Tom Ripley, um criminoso e vigarista carismático contratado por um milionário para trazer de volta seu filho, Richard Greenleaf, dos Estados Unidos para a Itália. Ao chegar no país europeu, Tom conhece o herdeiro e desenvolve uma obsessão profunda e perturbadora pelo rapaz. Essa fixação desencadeia uma série de crimes e transgressões que exploram os limites da moralidade e da identidade humana.

Uma perspectiva inovadora: A voz do vilão

Diferente do romance e das adaptações audiovisuais anteriores, a versão teatral brasileira apresenta uma abordagem singular: toda a narrativa é contada do ponto de vista de Tom Ripley. Hugo Bonèmer, que também atua como codiretor ao lado de Kamilla Rufino, alterna entre viver os acontecimentos no palco e narrá-los sob o olhar sádico e amoral do personagem principal. Essa escolha dramatúrgica cria um efeito provocador e reflexivo.

"Meu objetivo, enquanto personagem, é fazer o público acreditar que tudo o que o Tom faz é justificável. Enquanto artista, ator e diretor, é o oposto: fazer com que o público não ache isso aceitável", explica Bonèmer. O ator compara a estratégia narrativa do personagem com a lógica contemporânea das redes sociais, onde influenciadores constroem narrativas próprias e as apresentam como verdade absoluta.

Crime transformado em entretenimento: Uma reflexão urgente

A performance de Bonèmer levanta questões perturbadoras sobre nossa relação contemporânea com vilões carismáticos. "Tom é como um produtor de conteúdo, cria a própria narrativa e apresenta isso como verdade. Mas ele fala atrocidades e comete todos os crimes que se pode imaginar", pontua o ator. Essa observação toca em um problema social atual: a tendência de normalizar discursos criminosos quando apresentados com humor e carisma.

"Cada vez mais perdemos a referência do que é ruim e começamos a achar divertidos discursos que tentam transformar crime em humor", completa Bonèmer, alertando sobre a dessensibilização coletiva frente a transgressões morais quando revestidas de entretenimento.

Trocas de identidade no palco

Para intensificar a confusão entre personas e acentuar o tema da duplicidade, a adaptação de Phyllis Nagy utiliza as trocas de identidade como recurso cênico. Além de Hugo Bonèmer como Tom Ripley e Francisco Paz como Richard Greenleaf, o restante do elenco — Guilhermina Libanio, Cassio Pandolfh, João Fernandes, Laura Gabriela e Tom Nader — se reveza interpretando dois ou três papéis diferentes. Esse artifício reforça visualmente o mundo de ilusões e fraudes que permeia a narrativa.

Personagens femininas ganham protagonismo

Na trama original, as mulheres ocupam papéis secundários e pouco aprofundados. Na versão teatral, elas conquistam maior destaque e importância narrativa. Guilhermina Libanio interpreta tanto Marge, a namorada tradicional de Richard, quanto Sophia, uma prostituta autossuficiente. Laura Gabriela incorpora Emily e Tia Dottie, personagens periféricas que se revelam cruciais para esclarecer a amoralidade de Tom.

"Apesar de ser disruptiva para a época, por viver como escritora e não ser casada, Marge representa a mulher tradicional dos anos 1950, que foi criada para construir sua vida em torno da família", analisa Guilhermina. A atriz destaca como sua personagem possui maior agência na peça: "Amei como a Marge tem força nessa adaptação. Ela é mais direta, e saca qual é a do Tom muito antes do que no filme."

A codirectora Kamilla Rufino aponta como as personagens femininas periféricas são "extremamente relevantes para a trama". Segundo ela, "A peça mostra como o machismo afeta os homens também. O Tom Ripley é completamente influenciado por traumas causados pelo patriarcado, por essas pressões em cima de todos nós".

Sexualidade e preconceito na Itália dos anos 1950

Tom nunca se assume explicitamente homossexual na história, apesar de sua obsessão por Richard e relacionamentos profundos com homens. A ambiguidade em torno de sua sexualidade gera forte preconceito de outros personagens. Kamilla Rufino explica essa escolha: "Esse preconceito é outra maneira de mostrar como o mundo não sabe lidar com questões femininas, e a incapacidade das pessoas em volta dele lidarem com a possibilidade de algo mais feminino".

Para Hugo Bonèmer, a história ressoa profundamente com a comunidade LGBTQIA+. "A história do Tom faz com que homens gays de uma geração inteira se compadeçam com ele. Pessoas gays estão habituadas a cumprir mais de um papel desde sempre, a falar dois idiomas", reflete. "Desde que anunciamos a peça, ela tem sido muito difundida dentro de canais LGBT. Temos recebido mensagens muito carinhosas de pessoas que são apaixonadas por essa história."

Bastidores: Da tela ao palco

A jornada dessa adaptação começou em 2019, quando Francisco Paz, filho de exibidores e atual gestor do Gran Cine Bardot em Búzios, adquiriu os direitos de adaptar a história para os palcos. Imerso no mundo do cinema desde a infância, Francisco viu na obra uma oportunidade única de tragê-la ao teatro brasileiro. Hugo Bonèmer se juntou ao projeto posteriormente, compartilhando a direção com Kamilla Rufino.

Para Bonèmer, viver a dupla identidade de ator e diretor espelha o próprio personagem. "Esses dois lugares sempre existiram em mim. Cresci dentro de uma escola de dança em que meu pai produzia, fazia cenário, e minha mãe estava no palco. De certa forma, agora estou fazendo o que eles faziam.", revela o artista.

Informações práticas

Local: Teatro Gláucio Gill, Copacabana

Período: 4 a 27 de abril

Horários: Sábado a segunda-feira, às 20h

Ingressos: R$ 70

Classificação indicativa: 18 anos

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