Após quase três décadas de espera, a obra monumental "O Povo Brasileiro", do antropólogo Darcy Ribeiro, finalmente alcança o público chinês em uma edição cuidadosamente elaborada. O lançamento em Pequim coincide com um momento estratégico: 2026 é o Ano Cultural Brasil-China, marcado por uma série de eventos bilaterais que reforçam as relações entre os dois países. O evento de apresentação em Pequim revelou os desafios fascinantes enfrentados pela tradutora Yan Qiaorong ao transpor a obra para o mandarim, uma tarefa que se mostrou ainda mais complexa que o esperado.
Os Desafios Linguísticos da Tradução
A jornada de traduzir "O Povo Brasileiro" para o mandarim começou com um obstáculo aparentemente simples: o próprio título. A palavra "povo" em mandarim, "renmin", carrega uma conotação política profundamente enraizada na história da China moderna. Após a revolução comunista de 1949 que estabeleceu a República Popular da China, este termo adquiriu significados políticos específicos que não correspondiam ao sentido original de Darcy Ribeiro, embora o antropólogo fosse declaradamente socialista e sua obra criticasse as relações desiguais entre as classes sociais no Brasil.
Para resolver essa questão semântica delicada, Yan Qiaorong expandiu o significado do título, transformando-o em "A gente brasileira", uma expressão que mantém o sentido de identidade nacional sem implicações políticas específicas. A professora da Faculdade de Estudos Internacionais da Universidade de Comunicação da China e diretora do Centro de Estudos sobre o Brasil explicou: "Em mandarim 'renmin' é um conceito político, define um determinado grupo dentro da população que tem certos direitos. Já este povo brasileiro enfatiza mais a identidade nacional. É o povo-nação".
Neologismos e Conceitos Antropológicos
Além do desafio inicial do título, a tradutora enfrentou dificuldades ainda maiores ao lidar com os neologismos criados por Darcy Ribeiro. Termos como "ninguendade" - que trata da desconstrução étnica na formação do povo brasileiro - e "cunhadismo" - referente à miscigenação resultado das práticas indígenas de incorporação de estrangeiros - exigiram compreensão profunda do pensamento antropológico do autor.
Para aprofundar seu entendimento desses conceitos complexos, Yan contou com a colaboração da antropóloga Gisele Jacon, que trabalhou como assistente de Darcy Ribeiro por seis anos e também compareceu ao lançamento. A complexidade da tradução de "cunhadismo" ilustra perfeitamente o desafio enfrentado: uma única palavra em português se transformou em cinco caracteres em chinês, demandando uma nota explicativa que ocupou uma página inteira do livro publicado.
Significado Cultural e Diplomático
O embaixador do Brasil em Pequim, Marcos Galvão, enfatizou durante o evento que uma das maiores lições de Darcy Ribeiro reside na demonstração de como, apesar da enorme diversidade brasileira, os brasileiros se reconhecem e se comportam como um único povo-nação. O embaixador ressaltou que esse sentimento de unidade não implica em ignorar as disparidades, contradições e antagonismos que são fundamentais para a realidade do país, justificando assim o imenso valor da obra.
Galvão também abordou um equívoco comum na percepção internacional sobre os brasileiros: "A tendência dos brasileiros à autocrítica, à autoironia, não deve jamais ser confundida com baixa autoestima ou complexo de inferioridade. Nós brasileiros somos o contrário disso. Somos um povo orgulhoso, muito orgulhoso". O embaixador destacou que mais de 210 milhões de pessoas estão unidas por um forte sentimento de nação, com uma clara e orgulhosa consciência de sua singularidade.
Aproximação Cultural e Intelectual
José Ronaldo Alves da Cunha, presidente da Fundação Darcy Ribeiro, reforçou durante o lançamento que o melhor momento das relações Brasil-China exige ir além dos laços meramente econômicos. Para Cunha, a aproximação cultural é essencial e mais efetiva para reduzir diferenças entre nações. Embora o comércio facilite as relações diplomáticas, é através do entendimento cultural que se torna possível a verdadeira convivência das diferenças.
A inclinação anticolonialista de Darcy Ribeiro também contribui para a absorção de suas ideias na China, segundo Cunha. O pensador foi um dos primeiros intelectuais a desenvolver a antropologia a partir das Américas, não a partir das matrizes europeias tradicionais. Cunha planeja realizar uma peregrinação por universidades chinesas para promover o lançamento do livro, confiando no poder sedutor do estilo literário de Darcy Ribeiro, descrevendo sua obra como "um livro popular. Um livro para as pessoas lerem".
