Entre os dias 25 e 27 de março, a Biblioteca Nacional sediará o II Simpósio Brasileiro de Investigação Científica do Patrimônio Cultural, reunindo especialistas, pesquisadores e instituições que vêm se dedicando a um dos campos mais promissores — e ainda insuficientemente difundidos — da preservação: a aplicação de técnicas científicas avançadas na análise, conservação e restituição de bens culturais.
O evento, que dá continuidade a uma primeira edição já bem-sucedida, é fruto de uma articulação institucional que merece destaque. Estão à frente da organização o LAB.MOV — Laboratório de Ciência Aplicada ao Patrimônio Cultural do Instituto Federal do Rio de Janeiro, o Laboratório de Instrumentação Nuclear da COPPE/UFRJ e a própria Biblioteca Nacional, instituição que simboliza, como poucas, a centralidade do Rio de Janeiro na guarda da memória brasileira.
Nos últimos anos, a equipe do IFRJ tem desenvolvido um trabalho de pronunciada relevância junto ao Instituto Brasileiro de Museus, aplicando técnicas como a fluorescência de raios X no estudo de obras de arte, permitindo análises não invasivas que revelam camadas ocultas, pigmentos, materiais constitutivos e intervenções ao longo do tempo. Trata-se de um avanço significativo, que aproxima o Brasil das práticas internacionais mais sofisticadas em conservação e investigação patrimonial.
Em paralelo, o Laboratório de Instrumentação Nuclear da COPPE/UFRJ tem conduzido pesquisas de igual importância, em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e com a Arquidiocese do Rio de Janeiro, aplicando técnicas como tomografias e outras metodologias de imageamento em esculturas e elementos de talha. Esses estudos têm permitido compreender estruturas internas, identificar intervenções anteriores e subsidiar decisões de restauro com um grau de precisão até então raro no país.
A programação do simpósio reflete essa amplitude. As mesas se distribuem por temas que vão da investigação científica propriamente dita à restauração, passando pela museologia, pelos bens integrados e por experiências internacionais, compondo um panorama robusto das múltiplas dimensões envolvidas na preservação do patrimônio cultural.
Entre esses eixos, ganha especial relevância o debate sobre bens integrados — categoria que abrange elementos como talhas, pinturas murais e demais componentes indissociáveis de edifícios históricos. A presença da coordenadora-geral de autorização e fiscalização do IPHAN nesta mesa — a arquiteta Elisa Taveira — é particularmente oportuna, sobretudo num momento em que o Instituto vem avançando de maneira consistente na modernização de seus instrumentos de gestão e controle.
O Banco de Bens Culturais Procurados (BCP) — plataforma digital do IPHAN voltada ao registro e à difusão de informações sobre bens protegidos furtados ou desaparecidos — acaba de passar por atualizações relevantes, ampliando sua capacidade de consulta e investigação. Paralelamente, o Instituto encontra-se em vias de disponibilizar ao público uma nova plataforma de inventário de bens móveis e integrados, resultado de décadas de levantamentos realizados em todo o território nacional. Soma-se a isso a discussão, já em curso, de parcerias com grandes empresas de tecnologia para apoiar a mitigação da comercialização irregular de obras de arte e antiguidades, especialmente aquelas com restrição de circulação — seja por integrarem acervos tombados ou musealizados, seja por terem sido produzidas antes de 1889, condição que impede sua saída do país.
Na mesma mesa, a presença da museóloga Marcela Coelho, diretora de bens móveis do INEPAC, reforça a dimensão federativa desse esforço. O Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro tem desempenhado papel relevante no apoio à preservação e na fiscalização do tráfico de bens, tendo participado de maneira decisiva na restituição da célebre imagem de Sant’Ana Guia de Piraí, encontrada no Museu de Sant’Ana, em Tiradentes. Casos como esse evidenciam a importância da articulação entre diferentes esferas de governo e instituições na proteção do patrimônio.
A mesa contará ainda com a participação de Claudio André de Castro, provedor da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores e responsável pela Mordomia da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, cuja presença dialoga diretamente com um ponto central desse debate: o papel dos detentores na preservação e na restituição de bens culturais. A análise da iconografia, dos antigos inventários e da heráldica utilizada por irmandades, ordens religiosas e episcopados — tema que também será abordado nesta mesa através da minha intervenção — tem se mostrado decisiva na recuperação de peças desaparecidas.
Não por acaso, alguns dos principais casos recentes de restituição, já concluídos ou em andamento, envolvem igrejas do Rio de Janeiro, muitas delas sob gestão de instituições que mantêm, ainda hoje, registros históricos detalhados de seus acervos. A incorporação de novas tecnologias, especialmente com o avanço das inteligências artificiais, tende a ampliar ainda mais esse potencial, permitindo a triagem automatizada de objetos suspeitos e o direcionamento mais eficiente do trabalho dos especialistas.
Ao final, o simpósio se apresenta não apenas como um encontro acadêmico, mas como um espaço estratégico de convergência entre ciência, gestão pública e sociedade. As inscrições, esgotadas há algum tempo em razão da alta demanda, indicam o crescente interesse por esse campo. Ainda assim, o evento será transmitido pelas redes da Biblioteca Nacional, ampliando seu alcance e permitindo que o debate ultrapasse os limites físicos do auditório.
O Rio de Janeiro, que concentra parcela significativa do patrimônio cultural brasileiro, tem muito a aprender com essa articulação institucional. Em um contexto marcado, desde os anos 1960, por um progressivo enfraquecimento da presença federal na cidade — sem que tenha havido, em contrapartida, a construção de um modelo alternativo de governança à altura de seus acervos —, iniciativas como esta apontam um caminho possível. A preservação do patrimônio exige, cada vez mais, ciência, cooperação e inteligência institucional. E, sobretudo, a capacidade de transformar conhecimento em ação contínua sobre os tesouros que nos definem como país.
