O retorno de Isabelle Drummond às novelas após sete anos
Depois de quase sete anos longe das novelas, Isabelle Drummond retornou ao horário das sete da TV Globo como protagonista de "Coração Acelerado", marcando um ponto de inflexão em sua trajetória artística. Diferente de seus papéis anteriores caracterizados por heroínas solares e clássicas, a atriz agora encarna Naiane, uma influenciadora ambiciosa e antagonista moldada por fama, validação e excesso. Esse retorno representa não apenas um reencontro com o formato de telenovela, mas também uma evolução consciente em suas escolhas profissionais.
A atriz revelou ao O GLOBO que a ausência prolongada do meio televisivo foi preenchida por experiências significativas em cinema, teatro e projetos de direção. "Voltar às novelas foi como reencontrar um ritmo muito próprio. A novela exige presença diária, escuta e um envolvimento coletivo muito intenso. Mesmo tendo trabalhado em outros formatos nesse intervalo, senti falta dessa troca contínua com o público e com a equipe", afirmou.
A direção como catalisador de transformação artística
Segundo Isabelle, a experiência de dirigir foi um divisor de águas fundamental para ampliar sua compreensão do fazer artístico. "Dirigir foi decisivo para minha evolução profissional. Quando passei a entender o set como um organismo inteiro, com todos os seus departamentos e ritmos, ganhei mais segurança para arriscar", explica a atriz. Essa perspectiva mais ampla permitiu que ela se sentisse confortável em sair do lugar esperado, confiando mais em seu repertório e sua escuta artística.
O intervalo longe da televisão também trouxe consciência de processo e um olhar mais aprofundado sobre o trabalho. A experiência acumulada em diferentes linguagens artísticas contribuiu para uma abordagem mais madura e consciente de suas escolhas profissionais.
Naiane: complexidade além da vilania
O maior desafio de Isabelle ao interpretar Naiane é não simplificar a personagem. Segundo ela, o papel demanda um trabalho emocional muito atento para não reduzir a antagonista a um rótulo. "A Naiane vive num universo muito reconhecível hoje, mas ela não pode ser reduzida. Ela é vilã, sim, mas é complexa, ambiciosa, cheia de contradições. O cuidado foi não julgar a personagem e não cair em caricaturas", destaca.
A vilania de Naiane nasce do excesso, não da carência, exigindo uma interpretação que permita ao público se incomodar, mas também se envolver com a personagem. Essa abordagem reflete a evolução das narrativas femininas na televisão brasileira, onde as mulheres ganham mais camadas e direito à complexidade.
Projetos autorais e a cinebiografia de Laura Alvim
Paralelamente à novela, Isabelle desenvolve trabalhos no audiovisual, incluindo uma cinebiografia de Laura Alvim. Seu interesse por narrativas femininas que atravessam o tempo é um fio condutor em seus projetos criativos. "Me interesso muito por mulheres que romperam estruturas e desafiaram seu tempo. Essas histórias ajudam a iluminar questões que ainda estão presentes hoje", comenta.
A criação e direção surgiram como desdobramento natural de sua trajetória. Isabelle relata que passou a vida inteira observando sets de dentro, entendendo tempos, silêncios, relações e escolhas artísticas. Esse conhecimento acumulado a impulsionou para a direção como forma de cuidar da narrativa e do impacto emocional das histórias.
Literatura e poesia nas redes sociais
Um dos projetos autorais de Isabelle é uma série de curtas que leva literatura e poesia para as redes sociais de forma sensível e autoral. O primeiro filme conta com a participação de Vera Holtz, direção de Denise Saraceni e textos de Hilda Hilst. "A ideia nasceu do desejo de levar literatura, poesia e arte para as redes sociais fugindo das trends e apostando na profundidade", explica.
O projeto prevê novos encontros geracionais, com o desejo de trabalhar com Nathália Timberg. Isabelle busca criar obras em que as atrizes não apenas interpretem, mas ampliem o sentido da narrativa com sua própria presença, criando um diálogo vivo entre gerações.
Evolução das personagens femininas na televisão
Ao refletir sobre a transformação das mulheres na televisão desde o início de sua carreira, Isabelle reconhece avanços significativos. "Eu sinto uma mudança muito clara. As mulheres em cena ganharam mais camadas, mais contradições e mais direito à complexidade. A TV passou a abrir espaço para personagens que não precisam ser exemplares o tempo todo, que podem errar, ser ambíguas, intensas", observa.
Essa evolução reflete mudanças tanto no mercado quanto no olhar do público, permitindo que atrizes como Isabelle possam explorar papéis mais densos e menos óbvios, contribuindo para narrativas mais ricas e humanas.
Privacidade e limites nas redes sociais
Apesar de milhões de seguidores, Isabelle mantém-se discreta nas redes sociais. "Com o tempo aprendi que ser pública não significa ser totalmente exposta. Cresci diante das câmeras e isso me fez entender a importância de criar limites para me preservar emocionalmente", finaliza. A atriz compartilha aquilo que faz sentido para seu trabalho e momento de vida, sem transformar sua existência pessoal em espetáculo.
