Operações policiais no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, resultaram em 160 mortes ao longo de uma década, de acordo com um levantamento divulgado pela organização Redes da Maré. O estudo, que abrange dados de 2016 a 2025, também aponta impactos diretos na rotina de escolas e unidades de saúde da região.
A região das 15 favelas que compõem o território teve um total de 231 operações. Apesar do alto número de mortes, apenas 16 casos tiveram perícia realizada no local, o que equivale a 10% do total.
Além das mortes, o boletim “Direito à Segurança Pública na Maré” contabiliza 1.538 episódios de violência e violações de direitos durante as ações policiais. Entre os registros estão 226 pessoas feridas, casos de tortura, agressões físicas e psicológicas e danos ao patrimônio dos moradores.
O ano mais letal foi 2019, com 30 mortes em 24 operações. Já 2024 teve o maior número de ações policiais, com 42 operações e 20 mortos. Em 2025, houve queda no número de operações, mas um aumento proporcional na letalidade, com 12 mortes, um aumento de 58% em relação ao ano anterior.
Segundo a coordenadora da Redes da Maré, Tainá Alvarenga, os dados revelam a continuidade de um padrão de violações de direitos e impactos negativos na população.
O levantamento também destaca o uso de helicópteros nas operações, onde entre 2019 e 2025, 64% das mortes ocorreram em ações que envolviam aeronaves. A prática é questionada por ampliar os riscos em áreas densamente povoadas e contrariar diretrizes do Supremo Tribunal Federal (STF), que visa reduzir a letalidade policial.
A ausência de perícia em grande parte dos casos é apontada como um obstáculo à responsabilização. Das 160 mortes registradas, apenas uma gerou denúncia do Ministério Público, resultando em um policial acusado de homicídio doloso triplamente qualificado.
As operações também causam impacto na educação, com escolas fechadas por 163 dias entre 2016 e 2025, afetando o aprendizado de quase 8 mil alunos. Na área da saúde, unidades chegaram a ficar fechadas por 14 dias em 2025, resultando no cancelamento de quase 8 mil atendimentos.
O estudo conclui que as operações policiais têm efeitos persistentes sobre direitos básicos, como acesso à educação e à saúde, mesmo quando não resultam em mortes.
