Profissionais de Saúde Denunciam Escassez Crítica de Medicamentos e Alimentos
Centenas de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde tomaram as ruas de La Paz nesta quinta-feira para denunciar a grave crise humanitária que assola o sistema hospitalar boliviano. A marcha, liderada por três ambulâncias com sirenes acionadas, evidencia o colapso do setor de saúde provocado pelos bloqueios de estradas mantidos há um mês por manifestantes contrários ao governo do presidente Rodrigo Paz.
Os profissionais da saúde, vestidos com jalecos brancos, gritavam a palavra de ordem que resume a situação alarmante: "Para os pacientes, oxigênio e comida!" O protesto reflete a desesperação de médicos e enfermeiros que enfrentam diariamente a impossibilidade de oferecer atendimento adequado aos seus pacientes.
Impacto Devastador nos Hospitais Bolivianos
A situação nos hospitais bolivianos atingiu níveis críticos. Segundo depoimento de Mónica Reyes, médica com 48 anos de experiência, os suprimentos hospitalares estão praticamente esgotados. "Já não temos suprimentos nem para cinco dias. A alimentação nos hospitais está acabando, os produtos estão sendo racionados. Os pacientes já sofrem com a dor da doença, e agora se soma a dor do país", afirmou à AFP.
A Câmara da Indústria Farmacêutica Boliviana revelou dados preocupantes: cerca de 50 toneladas de medicamentos e oxigênio destinados aos hospitais não puderam ser distribuídas devido aos bloqueios nas vias de acesso. A situação é agravada pelo fato de que existem mais de 60 pontos de bloqueio espalhados por todo o território nacional, segundo informações da estatal Administradora Boliviana de Carreteras.
Contexto Político e Social da Crise
Desde o início de maio, operários, camponeses, mineiros, transportadores e professores organizam protestos para exigir soluções para a pior crise econômica enfrentada pela Bolívia em quatro décadas. Um segmento dos manifestantes também reclama pela renúncia do presidente de centro-direita Rodrigo Paz, que assume a presidência há apenas seis meses.
O governo boliviano acusa grupos de tentar "alterar a ordem democrática" e responsabiliza o ex-presidente socialista Evo Morales (2006-2019), que se encontra foragido em um caso envolvendo acusações de suposto tráfico de menor, por incentivar os protestos.
Medidas Governamentais e Apelos por Diálogo
Na terça-feira, o Congresso Nacional aprovou uma lei revogando uma norma que exigia autorização parlamentar para que o presidente decretasse estado de exceção. Esta medida permitiria conter os protestos com o uso das Forças Armadas e restringir liberdades de reunião e circulação.
Luis Larrea, presidente do Colégio Médico, apelou ao governo para que abra diálogos com os manifestantes. Contudo, alertou: "E, se não houver diálogo, então que use o que diz a Constituição (...), vidas humanas estão em perigo", referindo-se à possibilidade de decretação de estado de sítio como alternativa para resolver a crise.
Saldo Humano da Crise
O custo humano da crise já é mensurável. De acordo com a Defensoria do Povo da Bolívia, quatro pessoas faleceram por não terem recebido atendimento médico em tempo hábil devido aos bloqueios nas estradas.
A situação expõe a vulnerabilidade do sistema de saúde boliviano e a urgência de uma solução política que permita a retomada da circulação de insumos médicos essenciais, salvaguardando vidas e restaurando a capacidade operacional dos hospitais do país.
