Você está em:

Alerj mantém voto secreto: Escolha de Fux favorece acordos políticos e ignora a vontade do povo

Decisão do ministro Luiz Fux suspendeu o voto aberto e o prazo de desincompatibilização na eleição indireta para o governo do Rio de Janeiro. A medida, que atinge a disputa pelo mandato-tampão até dezembro de 2026, abriu novo debate sobre transparência, segurança e controle público.
Picture of Amanda Clark

Amanda Clark

Na quarta-feira, 18 de março de 2026, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, derrubou por liminar dois pilares centrais da lei aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) para regular a eleição indireta ao mandato-tampão de governador. A decisão, tomada em ação movida pelo PSD — partido do prefeito Eduardo Paes, declarado pré-candidato ao governo do estado —, suspendeu a exigência de voto aberto, nominal e presencial, e anulou o prazo de desincompatibilização de 24 horas para candidatos que ocupam cargos no Executivo.

O resultado imediato é que os 70 deputados estaduais da Alerj decidirão, em voto secreto, quem governará o estado do Rio de Janeiro até dezembro de 2026 — sem que o eleitor saiba como cada um votou.

É uma decisão que precisa ser debatida com honestidade. E é o que farei aqui.

O Argumento de Fux — e Suas Contradições

O ministro fundamentou a derrubada do voto aberto em dois pilares: o princípio constitucional do sigilo do voto e o risco concreto de violência política no Rio de Janeiro. Fux citou que o estado registrou o assassinato de 43 políticos nos últimos 20 anos e argumentou que, em um ambiente dominado por milícias e narcotraficantes, o voto aberto poderia expor os parlamentares a retaliações, cooptações e pressões indevidas.

A lógica parece protetora à primeira vista. Mas ela inverte a realidade de quem viveu esse ambiente por dentro.

Sou um dos parlamentares que mais sofreu ameaças no exercício do mandato na Alerj. Fui citado pela coluna do jornalista Ancelmo Gois, no jornal O Globo, por gastos do meu gabinete com o aluguel de um carro blindado — apresentado como "regalia". A nota mereceu minha resposta pública no Diário do Rio de Janeiro, e me aproveitei do espaço para dar todas as explicações que o cidadão fluminense merecia.

Passei o ano de 2019 inteiro indo de metrô para a Alerj. Foi apenas ao final daquele ano, depois de ter denunciado o modus operandi de uma organização criminosa especializada em roubo de cargas, que recebi ameaças formais e concretas. A partir daí, fui obrigado a andar armado durante todo o restante do meu mandato. Não foi uma escolha de conforto. Foi uma condição de sobrevivência para continuar exercendo meu papel de deputado.

O blindado que alugamos — um dos mais baratos do portal da transparência da Alerj — era parte de uma equação simples: ou eu me protegia e continuava denunciando crimes e economizando dinheiro público, ou eu me expunha e eventualmente me calava. Naquele mesmo período, nosso gabinete foi reconhecido pelo próprio O Globo como o mais econômico de toda a Alerj. Uma das nossas denúncias ao TCE/RJ evitou o desvio de R$ 9,8 milhões em compras de remédios com sobrepreço. O custo do blindado? O suficiente para pagar o aluguel por apenas alguns meses. O retorno? 163 anos do mesmo aluguel, em valor equivalente salvo.

Deputados Têm Estrutura — e Têm Responsabilidade

Cabe aqui um esclarecimento que o ministro Fux parece ter ignorado em sua fundamentação: deputados estaduais não são eleitores comuns. Eles dispõem de uma das mais robustas estruturas de suporte do funcionalismo público estadual — e isso precisa ser dito com todas as letras.

Cada deputado estadual da Alerj tem direito a mais de 40 assessores remunerados com verba pública de gabinete. São cargos de livre nomeação que podem ser usados para funções parlamentares, mas também para a organização da segurança pessoal e logística do mandato. Além disso, o regimento e a legislação pertinente permitem que o parlamentar formalmente requisite a cessão de agentes da Polícia Civil e da Polícia Militar para atuação junto ao gabinete — ficando a cargo da própria instituição policial deferir ou não a cessão, conforme disponibilidade e critério técnico. E há ainda uma terceira via: o requerimento direto ao Governo do Estado solicitando escolta policial, instrumento previsto e disponível a qualquer deputado que comprove necessidade concreta.

O sistema institucional já oferece ao parlamentar fluminense um conjunto de ferramentas legítimas e robustas para lidar com ameaças à sua segurança — sem que seja necessário recorrer ao voto secreto como escudo.

A violência política no Rio é real, grave e documentada. Mas a resposta institucional correta a ela não é esconder o voto — é proteger o parlamentar para que ele vote abertamente, com responsabilidade perante seu eleitor.

A lógica de Fux diz: "o ambiente é perigoso, portanto vote em segredo." A lógica democrática diz: "o ambiente é perigoso, portanto o Estado deve garantir a segurança do parlamentar para que ele possa votar com transparência." São caminhos radicalmente diferentes, com consequências radicalmente diferentes.

O Voto Secreto Não Protege o Honesto — Garante a Negociata

Aqui está o ponto central que a decisão de Fux não enfrenta: o voto secreto não protege o deputado honesto. Ele garante, isso sim, que o parlamentar possa negociar em silêncio, sem que o eleitor jamais saiba o que foi combinado em troca do seu apoio.

Nas eleições indiretas, os candidatos ao mandato-tampão precisam construir maioria. Em ambiente de voto secreto, cada deputado vira uma caixa preta. Secretarias, cargos, contratos, benesses orçamentárias — tudo pode ser ofertado como moeda de troca, e o eleitor nunca saberá em quem seu representante votou nem o que recebeu por isso.

O voto aberto, por outro lado, é o instrumento de accountability mais básico da democracia representativa. Quando o deputado vota à vista do público, ele presta contas diretamente ao cidadão que o elegeu. É possível ao eleitor comparar o discurso do parlamentar em campanha com suas ações no exercício do mandato. É possível cobrá-lo nas urnas.

O argumento de que o voto aberto facilita a coerção por grupos criminosos é real — mas é exatamente por isso que o Estado precisa proteger o parlamentar, não encobrir seu voto. Quando se opta pelo segredo como solução para a violência, entrega-se ao crime uma vitória simbólica: a de que a transparência democrática não é compatível com a realidade do Rio.

O STF Contra Si Mesmo: A Virada Jurisprudencial de 2026

Para entender a gravidade da decisão de Fux, é preciso situá-la no contexto da própria jurisprudência do STF. A Corte já havia enfrentado duas vezes, de forma direta, a questão do voto em eleições indiretas para governador — e em ambas as ocasiões o entendimento foi substancialmente diferente do que Fux agora aplica ao Rio de Janeiro.

Tocantins, 2009 — ADIs 4.298 e 4.309

O primeiro grande precedente veio do julgamento das ADIs 4.298 e 4.309, que questionavam a lei estadual de Tocantins sobre a eleição indireta para governador e vice. Na ocasião, o ministro Joaquim Barbosa chegou a registrar em seu voto que o voto aberto em eleição indireta poderia conflitar com o sigilo constitucional. No entanto, o plenário do STF confirmou a realização da eleição indireta naquele estado e não invalidou o modelo de votação adotado pela Assembleia Legislativa estadual. A Corte reconheceu expressamente a autonomia dos estados para disciplinar

Posts Relacionados

Geotecnia em Infraestrutura: O Papel Crítico da Engenharia no Metrô de São Paulo e Obras Subterrâneas

Geotecnia em Infraestrutura: O Papel Crítico da Engenharia no Metrô de São Paulo e Obras Subterrâneas

Geotecnia em infraestrutura: desafios da Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo e inovações em engenharia subterrânea urbana.

INSS reduz fila em 500 mil pedidos em dois meses: confira o andamento

INSS reduz fila em 500 mil pedidos em dois meses: confira o andamento

INSS reduz fila em 500 mil pedidos em dois meses. Confira como ficou o processamento de requerimentos de benefícios.

Show de Shakira em Copacabana terá 8 mil policiais e segurança reforçada contra furtos

Show de Shakira em Copacabana terá 8 mil policiais e segurança reforçada contra furtos

Show de Shakira em Copacabana terá 8 mil policiais e sistema de segurança contra furtos. Operação integrada com drones e reconhecimento facial.

Couto oficializa mudança na Corregedoria da PM do Rio; coronel Marcelo Ramos assume comando

Couto oficializa mudança na Corregedoria da PM do Rio; coronel Marcelo Ramos assume comando

Coronel Marcelo Ramos do Carmo assume oficialmente a Corregedoria da PM do Rio, em mudança definida antes do caso da Pavuna.

Governo Lula suspende 3,4 milhões de multas do sistema free flow: saiba como recuperar pontos na CNH

Governo Lula suspende 3,4 milhões de multas do sistema free flow: saiba como recuperar pontos na CNH

Governo suspende 3,4 milhões de multas do free flow. Motoristas têm até 16 de novembro para pagar débitos e recuperar pontos na CNH.

Marinha do Brasil lança navio-patrulha Mangaratiba: conheça especificações e capacidades da nova embarcação

Marinha do Brasil lança navio-patrulha Mangaratiba: conheça especificações e capacidades da nova embarcação

Marinha do Brasil lança navio-patrulha Mangaratiba. Conheça as especificações técnicas, capacidades operacionais e funções estratégicas da nova embarcação.

Rei do Brega Funk Baleado em SP: Zona Sul Registra 33% de Aumento em Roubos de Celular

Rei do Brega Funk Baleado em SP: Zona Sul Registra 33% de Aumento em Roubos de Celular

Anderson Neiff, rei do brega funk, baleado em SP. Região teve 33% de aumento em roubos de celular. Confira detalhes do incidente.

Anderson Neiff, rei do brega funk, é baleado em São Paulo após show; artista segue internado

Anderson Neiff, rei do brega funk, é baleado em São Paulo após show; artista segue internado

Anderson Neiff, rei do brega funk, é baleado em São Paulo após show e segue internado no Hospital Sírio-Libanês. Polícia investiga crime.

en_USEnglish