{"id":26356,"date":"2026-05-30T12:01:35","date_gmt":"2026-05-30T15:01:35","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/redacao\/agricultura-corais-ufrj-reproducao-laboratorio-recifes\/"},"modified":"2026-05-30T12:01:35","modified_gmt":"2026-05-30T15:01:35","slug":"agricultura-corais-ufrj-reproducao-laboratorio-recifes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/noticias\/agricultura-corais-ufrj-reproducao-laboratorio-recifes\/","title":{"rendered":"Agricultura de Corais: UFRJ Inicia Reprodu\u00e7\u00e3o em Laborat\u00f3rio para Salvar Recifes do Colapso Clim\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<h2>Primeira Reprodu\u00e7\u00e3o de Corais em Laborat\u00f3rio no Brasil<\/h2>\n<p>A Universidade Federal do Rio de Janeiro marcou um momento hist\u00f3rico ao realizar a primeira reprodu\u00e7\u00e3o de corais em laborat\u00f3rio do Brasil durante o per\u00edodo de carnaval. O feito, desenvolvido pelo Laborat\u00f3rio de Bioeconomia, abre perspectivas promissoras para a restaura\u00e7\u00e3o de um dos ecossistemas mais vulner\u00e1veis do planeta. Com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas acelerando a degrada\u00e7\u00e3o dos oceanos, essa inova\u00e7\u00e3o pode ser fundamental para evitar a extin\u00e7\u00e3o em massa dos recifes.<\/p>\n<p>Segundo proje\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, se o aquecimento dos oceanos continuar nos padr\u00f5es atuais, entre 70% e 90% dos recifes de corais podem desaparecer nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Essa perspectiva alarmante justifica investimentos em solu\u00e7\u00f5es inovadoras como a desenvolvida pela institui\u00e7\u00e3o carioca, que abriga um ecossistema respons\u00e1vel por aproximadamente 25% da biodiversidade marinha mundial.<\/p>\n<h2>O Projeto Liderado por Pesquisadores Brasileiros<\/h2>\n<p>O projeto de reprodu\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio \u00e9 coordenado pelo casal de pesquisadores Cristiane e Fabiano Thompson, que iniciou suas atividades no ano anterior com o objetivo de aumentar significativamente a popula\u00e7\u00e3o de corais. A meta \u00e9 restaurar recifes que v\u00eam se degradando progressivamente, especialmente na Regi\u00e3o dos Lagos do Rio de Janeiro e no Nordeste brasileiro, com destaque para Abrolhos, na Bahia, onde fica o primeiro parque nacional marinho do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os pesquisadores passaram aproximadamente um ano monitorando as \u00e1guas de Arraial do Cabo, localidade no Rio de Janeiro, de onde coletaram esp\u00e9cimes de coral-c\u00e9rebro. Essa esp\u00e9cie \u00e9 end\u00eamica do Brasil, ocorrendo apenas em \u00e1guas brasileiras, e \u00e9 t\u00e3o significativa que ilustra a nota de R$100. Os corais foram extra\u00eddos no momento ideal para reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>O Processo de Reprodu\u00e7\u00e3o Controlado<\/h3>\n<p>Em ambiente cuidadosamente controlado, montado na laje do laborat\u00f3rio, mantiveram as incid\u00eancias naturais do sol e da lua. Entre quinta e domingo do per\u00edodo carnavalesco, os \u00f3vulos eclodiram e geraram as larvas que, futuramente, formar\u00e3o novos corais. Esse procedimento representa uma abordagem inovadora para acelerar processos que naturalmente levam s\u00e9culos.<\/p>\n<p><strong>Fabiano Thompson<\/strong> explica a vis\u00e3o do projeto: &#8220;H\u00e1 mais de 20 anos estudamos a degrada\u00e7\u00e3o dos corais, em Abrolhos, no Jap\u00e3o, Caribe e Austr\u00e1lia. A degrada\u00e7\u00e3o \u00e9 global. Com a perda dos corais, nos resta qual alternativa? Uma abordagem intervencionista. Vamos produzir os corais no laborat\u00f3rio, e assim reconstruir os recifes. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer um novo recife do zero, como se fosse uma agricultura dos corais.&#8221; O pesquisador cita inspira\u00e7\u00f5es em projetos similares desenvolvidos nos Estados Unidos e na Austr\u00e1lia.<\/p>\n<h2>Armazenamento e Potencial de Produ\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>As larvas que posteriormente se transformam em p\u00f3lipos &#8211; a unidade fundamental dos corais que formam os recifes &#8211; est\u00e3o armazenadas em nitrog\u00eanio l\u00edquido, utilizando t\u00e9cnica semelhante ao congelamento de \u00f3vulos humanos. Thompson afirma que existe potencial para gerar milh\u00f5es de corais atrav\u00e9s dessa metodologia. Atualmente, o material est\u00e1 sendo utilizado para testes e estudos cient\u00edficos, enquanto o laborat\u00f3rio busca recursos e financiamentos para a segunda etapa do projeto: a implanta\u00e7\u00e3o desses corais nos ambientes naturais degradados.<\/p>\n<p>A Regi\u00e3o dos Lagos e Abrolhos foram mencionados como prioridades para implementa\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio brasileiro. Thompson alerta que &#8220;s\u00f3 a reprodu\u00e7\u00e3o natural n\u00e3o d\u00e1 mais conta de manter essa popula\u00e7\u00e3o. Por isso a abordagem intervencionista, para acelerar a reprodu\u00e7\u00e3o. E tem que ser feito de modo r\u00e1pido.&#8221;<\/p>\n<h2>O Fen\u00f4meno do Branqueamento de Corais<\/h2>\n<p>Os corais s\u00e3o organismos hermafroditas que liberam simultaneamente espermatozoides e \u00f3vulos, com cada \u00f3vulo fecundado formando uma larva. Naturalmente, milh\u00f5es de desovas ocorrem durante o per\u00edodo reprodutivo, mas 99% das larvas s\u00e3o consumidas por outros peixes. A forma\u00e7\u00e3o completa de um recife pode levar centenas ou at\u00e9 milhares de anos. Esse ciclo natural deveria manter o equil\u00edbrio populacional, n\u00e3o fossem as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a polui\u00e7\u00e3o marinha.<\/p>\n<p>Estudos do Painel Intergovernamental Sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) da ONU confirmam que as ondas de calor e aquecimento dos oceanos &#8211; que bateram recordes nos \u00faltimos dois anos &#8211; est\u00e3o provocando morte em massa de corais globalmente. A \u00e1gua aquecida gera estresse t\u00e9rmico nesse ecossistema, resultando no chamado &#8220;branqueamento de corais&#8221;, processo onde as algas simbi\u00f3ticas que habitam os corais e fornecem energia s\u00e3o expulsas pelo calor, deixando os recifes brancos e eventualmente mortos.<\/p>\n<h2>Escala Global da Crise e Impacto Clim\u00e1tico<\/h2>\n<p>Conforme dados da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), ag\u00eancia oceanogr\u00e1fica do governo americano, aproximadamente 75% dos recifes mundiais j\u00e1 sofreram algum n\u00edvel de estresse t\u00e9rmico. As proje\u00e7\u00f5es do IPCC indicam que, com aquecimento planet\u00e1rio de 1,5\u00b0C acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais, entre 70% e 90% dos corais globais podem desaparecer nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. O limite de 1,5\u00b0C foi estabelecido pelo Acordo de Paris em 2015, mas institui\u00e7\u00f5es internacionais j\u00e1 reconhecem que ser\u00e1 ultrapassado at\u00e9 2030.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do aquecimento oce\u00e2nico, a polui\u00e7\u00e3o &#8211; desde esgoto sanit\u00e1rio at\u00e9 derramamentos de \u00f3leo &#8211; representa outra amea\u00e7a significativa aos corais, que abrigam cerca de 25% da vida marinha. Os recifes funcionam como ber\u00e7\u00e1rios essenciais para in\u00fameras esp\u00e9cies marinhas.<\/p>\n<h2>A Import\u00e2ncia Ecol\u00f3gica dos Recifes de Corais<\/h2>\n<p><strong>Marcelo Soares<\/strong>, professor do Instituto de Ci\u00eancias do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Cear\u00e1, compara a import\u00e2ncia dos corais \u00e0s florestas tropicais terrestres. &#8220;Os recifes de corais seriam como as florestas tropicais. Do mesmo jeito que a gente tem a floresta amaz\u00f4nica, que \u00e9 um dos sistemas de maior riqueza em termos de vida na \u00e1rea terrestre, os recifes de corais s\u00e3o os sistemas mais ricos dos oceanos,&#8221; explica. &#8220;Isso tem uma grande import\u00e2ncia para a pesca artesanal, o turismo e a prote\u00e7\u00e3o das \u00e1reas costeiras, como uma barreira de defesa contra tempestades e ondas fortes.&#8221; Ele conclui: &#8220;S\u00e3o os corais que constroem essa floresta marinha ao longo de s\u00e9culos, e a onda de calor \u00e9 como se fosse um grande inc\u00eandio debaixo d&#8217;\u00e1gua.&#8221;<\/p>\n<h2>Investimentos Globais em Restaura\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Com cen\u00e1rio de risco sobre a maioria dos ambientes de recife nos pr\u00f3ximos 50 anos, diversos locais como Austr\u00e1lia, Oriente M\u00e9dio, Caribe e Europa investem em restaura\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da reprodu\u00e7\u00e3o de corais em laborat\u00f3rios. Felipe Landuci, professor adjunto da UFRJ e pesquisador do projeto, destaca: &#8220;A maior relev\u00e2ncia do projeto \u00e9 a possibilidade de conservar os corais em maternidades e ber\u00e7\u00e1rios de corais. Fazer isso dentro de uma condi\u00e7\u00e3o controlada abre uma boa perspectiva de prever e escalar a produ\u00e7\u00e3o mesmo longe do mar. Podemos apoiar novos estudos com base neste material gen\u00e9tico. \u00c9 um primeiro passo para mais descobertas.&#8221;<\/p>\n<p>No entanto, Soares ressalva que esse desenvolvimento, embora importante, n\u00e3o substitui sob hip\u00f3tese alguma a necessidade de conserva\u00e7\u00e3o das \u00e1reas, combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e controle da polui\u00e7\u00e3o. A agricultura de corais \u00e9 um complemento essencial, mas n\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o isolada para a crise dos recifes marinhos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UFRJ realiza primeira reprodu\u00e7\u00e3o de corais em laborat\u00f3rio no Brasil. 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