{"id":27178,"date":"2026-07-12T16:00:38","date_gmt":"2026-07-12T19:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/redacao\/alem-da-conta-consumo-parcelado-endividamento-brasileiro\/"},"modified":"2026-07-12T16:00:38","modified_gmt":"2026-07-12T19:00:38","slug":"alem-da-conta-consumo-parcelado-endividamento-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/economia\/alem-da-conta-consumo-parcelado-endividamento-brasileiro\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m da Conta: Como o Consumo Parcelado Moldou a Cultura de Endividamento Brasileiro"},"content":{"rendered":"<h2>A Jornada do Consumo: De Goi\u00e2nia ao Rio de Janeiro<\/h2>\n<p>O consumismo sempre marcou presen\u00e7a na vida de quem cresce em uma sociedade de abund\u00e2ncia aparente. Quando morava em Goi\u00e2nia e visitava o Rio de Janeiro, os enormes shoppings da cidade maravilhavam. A av\u00f3 permitia que cada neta escolhesse duas roupas, um programa que alimentava sonhos infantis de pertencimento. Mochila da Company, t\u00eanis Bamba branco \u2013 cada item representava a busca por inclus\u00e3o no grupo escolar, um sentimento universal que transcende gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Conforme come\u00e7ava a ganhar dinheiro pr\u00f3prio, os desejos evolu\u00edram: primeiro o apartamento pr\u00f3prio, depois bolsas de luxo para confirmar sucesso profissional, e posteriormente o consumo maternal para compensar culpas de trabalhar intensamente. O consumo funciona como tampa para v\u00e1rios buracos emocionais: car\u00eancias, culpas, compensa\u00e7\u00f5es. Compramos quando nos separamos para levantar a autoestima, compramos quando trabalhamos excessivamente porque merecemos, compramos quando estamos felizes para nos presentear. De certa forma, o ter sempre se mistura com o ser, e frequentemente compramos para tentar pertencer.<\/p>\n<h2>Seis Anos Investigando a Rela\u00e7\u00e3o Brasileira com o Consumo<\/h2>\n<p>A paix\u00e3o pelo assunto levou a uma dedica\u00e7\u00e3o de seis anos atrav\u00e9s do programa &#8220;Al\u00e9m da Conta&#8221; no GNT, entre 2014 e 2020. Nesse per\u00edodo, investigou-se profundamente a rela\u00e7\u00e3o dos brasileiros com o consumo, entrevistando celebridades e pessoas an\u00f4nimas em diversas localidades. As hist\u00f3rias coletadas nos shoppings de Miami, brech\u00f3s de Nova York e mercados populares brasileiros revelaram um padr\u00e3o preocupante.<\/p>\n<p>Casais saindo direto do casamento para lua de mel em outlets, pessoas comendo cachorro-quente durante toda uma viagem apenas para comprar uma bolsa de marca, indiv\u00edduos acampados em barracas na porta das lojas na v\u00e9spera da Black Friday \u2013 essas cenas tornaram-se corriqueiras. De um dia para o outro, um peru de agradecimento no Dia de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as podia ser seguido pela compra de uma televis\u00e3o de 70 polegadas. Encontrou-se at\u00e9 um pastor de uma igreja chamada &#8220;Pare de Comprar&#8221; que benzia caixas registradoras para neutraliz\u00e1-las.<\/p>\n<h2>O Paradoxo do Consumo Consciente<\/h2>\n<p>As entrevistas com especialistas em oniomania, transtorno de compras compulsivas, e pessoas que contabilizavam o lixo gerado pelo consumo desenfreado sa\u00edam deprimentes. Por\u00e9m, curiosamente, pouco tempo depois j\u00e1 estava-se comprando sapatos na Quinta Avenida novamente. Apaixonar-se pelo second hand diminuiu um pouco a culpa, mas o poder de uma roupa bonita no dia em que a autoestima tira folga permanece irresist\u00edvel.<\/p>\n<p>O verdadeiro problema surge quando o desejo se transforma em v\u00e1rias parcelas. Dividir em dez vezes representa a ilus\u00e3o central do consumo brasileiro: a falsa impress\u00e3o de pertencimento. Existe um prazer quase inexplic\u00e1vel em perguntar &#8220;divide em quantas?&#8221; e, quando a resposta vem com &#8220;at\u00e9 seis vezes sem juros&#8221;, instantaneamente o produto parece valer muito mais a pena.<\/p>\n<h2>Parcelamento: Inclus\u00e3o Desigual no Consumo<\/h2>\n<p>O livro &#8220;Parcelado&#8221;, do ge\u00f3grafo Kau\u00ea Lopes dos Santos, analisa essa realidade nos bairros perif\u00e9ricos brasileiros. Casas simples, muitas vezes sem infraestrutura b\u00e1sica, mas com televis\u00f5es de plasma de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o pintam um retrato da desigualdade. Para uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o, o parcelamento representa a \u00fanica op\u00e7\u00e3o de inclus\u00e3o ao consumo, por\u00e9m de maneira profundamente desigual.<\/p>\n<p>Em maio de 2024, de acordo com o Banco Central, a inadimpl\u00eancia bateu recorde hist\u00f3rico, com mais de 80% das fam\u00edlias brasileiras endividadas. Dentro desses n\u00fameros existem quest\u00f5es econ\u00f4micas e sociais complexas: juros alt\u00edssimos, desemprego crescente, e uma lista infinita de motivos estruturais. Soma-se a isso a falta de educa\u00e7\u00e3o financeira, mat\u00e9ria nunca ensinada, principalmente para mulheres criadas para achar que dinheiro e contrato n\u00e3o s\u00e3o coisas de mulher.<\/p>\n<h2>Independ\u00eancia Financeira e Escolhas Reais<\/h2>\n<p>Independ\u00eancia financeira n\u00e3o se trata de ter mais dinheiro, mas de ter mais escolhas. Como falar de escolhas num pa\u00eds que ensina a apostar em jogos on-line durante transmiss\u00f5es de Copa do Mundo? A sociedade vende parcela como conquista, v\u00edcio como divers\u00e3o. Kau\u00ea resume bem a situa\u00e7\u00e3o: &#8220;o endividamento \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica que aliena o futuro&#8221;. \u00c9 s\u00f3 esperar a conta chegar para compreender as consequ\u00eancias reais do consumo desenfreado financiado por credi\u00e1rio.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como o parcelamento transformou o consumo brasileiro em endividamento cr\u00f4nico. An\u00e1lise profunda sobre culpa, pertencimento e educa\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>","protected":false},"author":4,"featured_media":27172,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-27178","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia"],"brizy_media":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27178"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27178\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27172"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalcorporativo.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}