A Indefinição Histórica da Seleção Brasileira na Semana de Estreia
A seleção brasileira enfrenta uma situação inédita na história recente da Copa do Mundo. Com apenas dias para o primeiro jogo contra o Egito, o técnico Carlo Ancelotti ainda mantém em aberto as definições sobre as duas laterais, o centroavante, possível terceiro meia ou ponta direita, além do próprio esquema tático. Esta incerteza contrasta fortemente com o padrão histórico da amarelinha, cujos 11 iniciais costumam estar na ponta da língua da torcida às vésperas da competição.
Há 20 anos, quando foi anunciada a convocação para a Copa do Mundo de 2006, a CBF divulgou junto com os nomes a numeração do elenco, indicando claramente a escalação titular que estaria em campo dois meses depois na Alemanha. O cenário atual é radicalmente diferente, revelando uma das maiores lacunas em aberto na preparação de um time brasileiro para o Mundial.
Os Treinos Revelam as Dúvidas do Técnico
Durante treino coletivo realizado na quarta-feira anterior à estreia, Carlo Ancelotti misturou titulares e reservas dos últimos amistosos em uma estratégia que expôs claramente suas incertezas. Em uma das equipes, escalou Matheus Cunha como centroavante, enquanto em outra utilizou Igor Thiago. Na zaga, a mesma indefinição: Marquinhos em uma equipe e Gabriel Magalhães em outra.
A lateral direita representa a maior dúvida após a lesão e corte de Wesley. Danilo e Roger Ibañez disputam a posição, criando mais um ponto de interrogação na estrutura do time. A escalação mais provável para o jogo de estreia conta com Alisson, Danilo ou Ibanez, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Alexsandro ou Douglas Santos, Casemiro, Bruno Guimarães, Lucas Paquetá ou Luiz Henrique, Raphinha, Vini Jr e Matheus Cunha ou Igor Thiago.
O Ciclo Curto de Ancelotti Explica a Formação Tardia
Carlo Ancelotti, aniversariante do dia, estreou como técnico da seleção há apenas um ano, o que oferece uma explicação para a formação tardia de um time titular definido. Porém, mesmo em situações passadas onde treinadores assumiram próximo à Copa do Mundo, a escalação não gerava tanto mistério literalmente na semana de estreia.
Em 1970, Zagallo herdou uma base sólida de João Saldanha e chegou ao México com decisões táticas já estabelecidas. A última definição que causou suspense até às vésperas do primeiro jogo foi a entrada de Tostão. Em 2002, o técnico Felipão, que também assumira o time um ano antes, adiantou a escalação da estreia aos jornalistas durante a preparação. Durante a fase de grupos houve a troca de Juninho Paulista por Kleberson, mas a formação com três zagueiros e o restante dos titulares já estavam bem definidos na mente do técnico.
O Histórico de Mudanças Durante a Competição
Mudanças no time titular durante a competição, mesmo em campanhas de títulos mundiais, estão longe de ser raridade na história da seleção brasileira. Contudo, as trocas pontuais costumavam acontecer dentro de formações bem estabelecidas, sem alterações significativas de esquemas táticos ou da espinha dorsal da equipe.
No bicampeonato conquistado entre 1958 e 1962, as hierarquias e funções dentro do elenco eram parte do Plano Paulo Machado de Carvalho, que levava o nome do então chefe da delegação da seleção. Este plano foi responsável por implantar uma gestão mais profissional e rígida à equipe. O Brasil tinha em 1958 uma espinha dorsal com Gylmar, Bellini, Nilton Santos, Zito e Didi, utilizando o 4-2-4 como formação bem definida. Após os primeiros jogos houve mudanças impactantes, mas sem alteração tática: as entradas dos jovens Pelé e Garrincha, que pediam passagem. Quatro anos depois, o plano se repetiu e a seleção chegava novamente com um time bem definido no papel.
A Bagunça Tática de 1966 e Suas Consequências
Em 1966, sem a presença de Paulo Machado de Carvalho, a seleção mudou sua estratégia de preparação e colheu maus frutos. A CBD, então CBF, organizou uma série de amistosos e treinamentos onde o elenco era dividido em times "verde", "amarelo", "azul" e "branco", tamanha quantidade de convocados. O técnico Vicente Feola levou 47 jogadores para a Inglaterra, as escalações não se repetiram durante o torneio e o Brasil foi eliminado precocemente.
Esta "bagunça" tática foi considerada o principal fator do fracasso na busca pelo tricampeonato. João Saldanha, que assumiu a seleção em 1969, priorizou definir uma espinha dorsal logo de cara em seu trabalho, argumentando que com a formação bem definida as individualidades se potencializariam.
Copa de 1978: Uma Exceção Notável
Uma exceção histórica foi a Copa de 1978, quando o técnico Claudio Coutinho deixou diversas posições em aberto. Havia a definição do 4-3-3 como esquema tático, mas querendo emular inovações que a Holanda apresentara com seu "futebol total", o treinador testou diferentes formações. Em meio à indefinição, craques como Zico e Roberto Dinamite não tiveram titularidade garantida.
O Padrão das Copas Recentes
Depois da virada do século, o time titular do Brasil para a estreia da Copa nunca foi motivo de muito mistério entre a torcida. Em 2006, o famoso "quadrado mágico" com Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo já havia sido confirmado antecipadamente, assim como a presença de outros nomes consagrados como Cafu e Roberto Carlos. Em 2002 e 2014, Felipão confirmou os times titulares para a imprensa sem rodeios. Em 2010, Dunga também chegou à Copa com 11 nomes bem definidos, com pouca margem para especulações. Tite, mesmo lidando com lesões meses antes das Copas de 2018 e 2022, não enfrentou grandes indefinições sobre os titulares na semana de estreia.
