O ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, procuraram o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), na tentativa de estabelecer um acordo que impeça a aprovação de uma série de projetos de lei e emendas constitucionais que representam um custo fiscal superior a R$ 270 bilhões para os cofres públicos.
O impasse fiscal
Segundo estimativas do governo, o impacto orçamentário das iniciativas em tramitação no Congresso Nacional é distribuído da seguinte forma: R$ 120 bilhões pela renegociação de dívidas rurais, R$ 100 bilhões com aposentadoria integral para agentes de saúde, R$ 47 bilhões com piso salarial de médicos e cirurgiões, e R$ 10 bilhões pela ampliação do Fundo de Participação dos Municípios.
Apesar das conversas realizadas, ainda não há indicações concretas de entendimento entre o governo e o Congresso. A equipe econômica manifesta preocupação com o momento atual da economia brasileira e argumenta que o país não possui capacidade fiscal para absorver tantas despesas simultâneas.
Principais projetos em discussão
Renegociação de dívidas rurais
Uma das medidas que mais preocupam o Executivo é o projeto de lei que prevê a renegociação das dívidas de produtores rurais. Embora o texto tenha sido originalmente construído para atender exclusivamente produtores atingidos por calamidade pública, o alcance foi significativamente ampliado durante a tramitação no Senado. A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou o projeto no final de maio, descartando as sugestões do Ministério da Fazenda para restringir o escopo da renegociação. O projeto está pronto para análise no plenário e representa um custo estimado de R$ 120 bilhões nos próximos dez anos.
Aposentadoria integral para agentes de saúde
Outra medida crítica é a proposta de emenda à Constituição (PEC) que regulamenta a aposentadoria integral para agentes de saúde. O texto já foi aprovado pela Câmara em outubro do ano passado e atualmente se encontra sob análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. O Ministério da Fazenda prevê um impacto total de aproximadamente R$ 100 bilhões.
Piso salarial de médicos e cirurgiões
Existe também um projeto de lei que define o piso salarial mínimo para médicos e cirurgiões. A medida tramita na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, e o governo estima um impacto de R$ 47 bilhões. Na lista de preocupações consta igualmente uma PEC que aumenta a participação da União no Fundo de Participação dos Municípios, com impacto previsto de R$ 10 bilhões.
A questão da escala 6x1
Além dessas medidas, o governo enfrenta uma disputa adicional com Alcolumbre sobre a PEC que extingue a escala de trabalho 6x1. A proposta foi aprovada pela Câmara no final de maio, mas ainda não começou sua tramitação no Senado. A expectativa é que o texto seja analisado pela CCJ do Senado, mas o presidente do colegiado, senador Otto Alencar (PSD-BA), ainda não definiu junto a Alcolumbre como será a tramitação do tema.
Declarações do ministro Durigan
Em conversas com jornalistas, Dario Durigan enfatizou que as pautas-bomba em tramitação no Congresso Nacional possuem um impacto fiscal grave, incompatível com o momento econômico atual do país. O ministro ressaltou a importância de manter a responsabilidade fiscal como prioridade central.
Durigan afirmou ter apresentado a Alcolumbre uma lista detalhada de projetos com impacto considerável, argumentando que o país não pode comprometer sua estabilidade econômica. Ele deixou claro que, embora seja legítimo responder às demandas de setores específicos, isso não pode ser feito colocando em risco a economia nacional como um todo.
Segundo interlocutores, Alcolumbre ouviu as demandas do governo, mas não se comprometeu com um encaminhamento específico para essas pautas.
Relação conturbada entre Lula e Alcolumbre
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado vivenciam uma relação tensa que tem prejudicado a articulação governamental na Casa Legislativa. O desentendimento intensificou-se quando Lula decidiu indicar o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), em vez de escolher o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), ex-presidente do Senado, como desejado por Alcolumbre e outros senadores.
Embora o Senado tenha rejeitado a indicação de Messias, o presidente Lula já sinalizou a intenção de encaminhar novamente o nome do AGU para a vaga aberta na Corte Suprema. O presidente do Senado aguarda um gesto de reaproximação de Lula para destravar a PEC 6x1, assunto que foi tratado em reunião recente entre as partes.
