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São Paulo registra maior número de mortes de pedestres desde 2017: especialistas apontam desenho urbano hostil

São Paulo registra 169 mortes de pedestres em cinco meses, maior número desde 2015. Especialistas apontam desenho urbano hostil como principal causa.
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Amanda Clark

Tragédia nas ruas: São Paulo enfrenta crise de segurança para pedestres

São Paulo vive um período alarmante de insegurança para pedestres. Entre janeiro e maio de 2026, a capital paulista registrou 169 mortes por atropelamento, o maior número para esse período desde 2015, quando foram contabilizadas 215 vítimas. Os dados provêm do Infosiga, sistema oficial de monitoramento de acidentes de trânsito do governo estadual, revelando uma trajetória preocupante de crescimento contínuo desde 2021.

O cenário mudou drasticamente após a pandemia de Covid-19. Em 2021, quando as restrições limitavam o trânsito, São Paulo atingiu o mínimo histórico com 106 mortes. Desde então, os números crescem anualmente, acumulando alta de 59,4% em cinco anos. Essa retomada não veio acompanhada de políticas eficazes de proteção aos usuários mais vulneráveis das vias.

Uma cidade planejada para carros, não para pessoas

Para Diogo Lemos, coordenador executivo da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, o aumento reflete falha estrutural no planejamento urbano. Segundo o especialista, quando um pedestre precisa caminhar 200, 300 ou até 600 metros para encontrar uma faixa de travessia, ou esperar vários minutos para cruzar a rua, a cidade está criando riscos desnecessários.

Paulo Guimarães, CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), identifica a raiz do problema: o modelo urbano herdado coloca o carro como ator principal do sistema de trânsito, tornando os pedestres estruturalmente vulneráveis. Três fatores principais explicam os números crescentes: a construção das cidades numa lógica hostil para pedestres, a intensificação do fluxo veicular pós-pandemia e o descontrole de velocidade com tolerância cada vez maior às velocidades inseguras.

Perfil das vítimas

Os dados revelam características importantes das vítimas. Entre 2015 e 2026, 37,7% das mortes por atropelamento envolveram idosos com 60 anos ou mais. Alarmantemente, 68,6% das vítimas morreram no local do acidente, indicativo de impactos de alta energia sem possibilidade de intervenção hospitalar. Entre os falecidos, 71,3% eram do sexo masculino.

Velocidade e distração: os vilões do trânsito

Além do desenho das vias, velocidade e distração ao volante são os principais fatores comportamentais que contribuem para a gravidade dos atropelamentos. Guimarães enfatiza que a velocidade interfere nos três momentos de um acidente: contribui para que aconteça, para sua gravidade e para o estado final das vítimas.

A diferença é crucial: um pedestre atropelado a 30 km/h tem alta chance de sobreviver. A 60 ou 70 km/h, essa chance praticamente desaparece. Pesquisa da plataforma Life360, que analisou mais de 3,47 bilhões de viagens no Brasil entre março de 2025 e março de 2026, indica que 97% dos motoristas são impactados por alguma forma de distração ao volante.

A geração Z e o risco digital

A relação dos jovens com a direção está fortemente atravessada por múltiplas fontes de distração, especialmente digitais. Entre os motoristas da geração Z, 67% admitem enviar mensagens enquanto dirigem, e a taxa de acidentes nessa faixa etária é quase seis vezes maior que entre condutores mais experientes. Comportamentos comuns incluem conversar com passageiros (89%), buscar músicas ou podcasts (86%) e comer ou beber enquanto dirige (55%).

Um padrão importante emerge dos dados: acidentes de trânsito são 57% mais frequentes aos domingos comparado aos dias úteis, enquanto índices de velocidade mais que dobraram nesse período.

Soluções simples e viáveis para salvar vidas

Especialistas apontam intervenções prioritárias para reduzir mortes. Reduzir o espaçamento entre faixas de pedestres para até 100 metros em avenidas é um dos principais pontos. Lemos também cita ampliação de calçadas nas esquinas, diminuição do raio de conversão de veículos e revisão da programação semafórica. Muitas dessas medidas são simples e de baixo custo, mas dependem de decisão política.

Lemos propõe mudança na abordagem: em vez de perguntarem apenas quem errou, as cidades precisam perguntar por que esse erro virou morte. O princípio de um Sistema Seguro reconhece que pessoas erram, mas esses erros não podem custar a vida.

O que a prefeitura está fazendo

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), informou que tem adotado medidas voltadas à segurança de pedestres. As ações incluem criação de Áreas Calmas com velocidade máxima de 30 km/h, Rotas Escolares Seguras, redução do limite de 50 para 40 km/h em 24 vias e implantação de mais de dez mil novas faixas de pedestres. A gestão também implementou travessias elevadas em locais estratégicos, aumento do tempo de travessia semafórica e o Programa Operacional de Segurança para vias com maior índice de acidentes.

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