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Além da Conta: Como o Consumo Parcelado Moldou a Cultura de Endividamento Brasileiro

Como o parcelamento transformou o consumo brasileiro em endividamento crônico. Análise profunda sobre culpa, pertencimento e educação financeira.
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Amanda Clark

A Jornada do Consumo: De Goiânia ao Rio de Janeiro

O consumismo sempre marcou presença na vida de quem cresce em uma sociedade de abundância aparente. Quando morava em Goiânia e visitava o Rio de Janeiro, os enormes shoppings da cidade maravilhavam. A avó permitia que cada neta escolhesse duas roupas, um programa que alimentava sonhos infantis de pertencimento. Mochila da Company, tênis Bamba branco – cada item representava a busca por inclusão no grupo escolar, um sentimento universal que transcende gerações.

Conforme começava a ganhar dinheiro próprio, os desejos evoluíram: primeiro o apartamento próprio, depois bolsas de luxo para confirmar sucesso profissional, e posteriormente o consumo maternal para compensar culpas de trabalhar intensamente. O consumo funciona como tampa para vários buracos emocionais: carências, culpas, compensações. Compramos quando nos separamos para levantar a autoestima, compramos quando trabalhamos excessivamente porque merecemos, compramos quando estamos felizes para nos presentear. De certa forma, o ter sempre se mistura com o ser, e frequentemente compramos para tentar pertencer.

Seis Anos Investigando a Relação Brasileira com o Consumo

A paixão pelo assunto levou a uma dedicação de seis anos através do programa "Além da Conta" no GNT, entre 2014 e 2020. Nesse período, investigou-se profundamente a relação dos brasileiros com o consumo, entrevistando celebridades e pessoas anônimas em diversas localidades. As histórias coletadas nos shoppings de Miami, brechós de Nova York e mercados populares brasileiros revelaram um padrão preocupante.

Casais saindo direto do casamento para lua de mel em outlets, pessoas comendo cachorro-quente durante toda uma viagem apenas para comprar uma bolsa de marca, indivíduos acampados em barracas na porta das lojas na véspera da Black Friday – essas cenas tornaram-se corriqueiras. De um dia para o outro, um peru de agradecimento no Dia de Ação de Graças podia ser seguido pela compra de uma televisão de 70 polegadas. Encontrou-se até um pastor de uma igreja chamada "Pare de Comprar" que benzia caixas registradoras para neutralizá-las.

O Paradoxo do Consumo Consciente

As entrevistas com especialistas em oniomania, transtorno de compras compulsivas, e pessoas que contabilizavam o lixo gerado pelo consumo desenfreado saíam deprimentes. Porém, curiosamente, pouco tempo depois já estava-se comprando sapatos na Quinta Avenida novamente. Apaixonar-se pelo second hand diminuiu um pouco a culpa, mas o poder de uma roupa bonita no dia em que a autoestima tira folga permanece irresistível.

O verdadeiro problema surge quando o desejo se transforma em várias parcelas. Dividir em dez vezes representa a ilusão central do consumo brasileiro: a falsa impressão de pertencimento. Existe um prazer quase inexplicável em perguntar "divide em quantas?" e, quando a resposta vem com "até seis vezes sem juros", instantaneamente o produto parece valer muito mais a pena.

Parcelamento: Inclusão Desigual no Consumo

O livro "Parcelado", do geógrafo Kauê Lopes dos Santos, analisa essa realidade nos bairros periféricos brasileiros. Casas simples, muitas vezes sem infraestrutura básica, mas com televisões de plasma de última geração pintam um retrato da desigualdade. Para uma parte significativa da população, o parcelamento representa a única opção de inclusão ao consumo, porém de maneira profundamente desigual.

Em maio de 2024, de acordo com o Banco Central, a inadimplência bateu recorde histórico, com mais de 80% das famílias brasileiras endividadas. Dentro desses números existem questões econômicas e sociais complexas: juros altíssimos, desemprego crescente, e uma lista infinita de motivos estruturais. Soma-se a isso a falta de educação financeira, matéria nunca ensinada, principalmente para mulheres criadas para achar que dinheiro e contrato não são coisas de mulher.

Independência Financeira e Escolhas Reais

Independência financeira não se trata de ter mais dinheiro, mas de ter mais escolhas. Como falar de escolhas num país que ensina a apostar em jogos on-line durante transmissões de Copa do Mundo? A sociedade vende parcela como conquista, vício como diversão. Kauê resume bem a situação: "o endividamento é uma condição crônica que aliena o futuro". É só esperar a conta chegar para compreender as consequências reais do consumo desenfreado financiado por crediário.

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