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Bruno Gagliasso: A Masculinidade Além do Choro e a Luta por uma Nova Definição de Ser Homem

Bruno Gagliasso questiona a masculinidade tradicional em entrevista profunda sobre emoção, atuação intensa e responsabilidade social como homem branco progressista.
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Amanda Clark

A Intensidade de um Ator que Leva o Personagem para Casa

Bruno Gagliasso, aos 44 anos, é conhecido por sua abordagem intensiva da profissão. O ator não apenas interpreta personagens, mas os vive plenamente, levando suas emoções para dentro de casa e transformando seu corpo e mente nos processos de preparação para papéis desafiadores. Essa característica se torna evidente em seu trabalho no filme "Por um Fio", adaptação do livro homônimo de Drauzio Varella, onde Gagliasso interpreta o irmão de um médico que morre de câncer. Para o papel, perdeu 24 quilos e admite ter se tornado "uma manteiga derretida" emocionalmente, impactando até mesmo sua vida familiar.

Durante a preparação para o filme, o ator relata que olhar para seus filhos tornou-se dolorido. Chorava constantemente e desejava abraçá-los e beijá-los ininterruptamente. Essa imersão emocional não é nova em sua carreira: em outras ocasiões, Gagliasso precisou se afastar de casa para conseguir se aprofundar em personagens. Essa dedicação, entretanto, levou-o a tomar uma decisão importante sobre sua carreira futura: escolher apenas papéis que o emocionem e o transformem como ator, ou que transformem as pessoas que o assistem.

Um Vasto Cardápio de Personagens e Histórias Importantes

O ator segue com uma agenda cinematográfica robusta que reforça sua reputação de intérprete versátil e intenso. Encarnará um líder estudantil em "Honestino", um escravocrata moderno em "Corrida dos Bichos" na Amazon Prime, e uma versão branca e de olhos azuis do herói nacional em "Makunaíma XXI". Além disso, participará da série "Rauls" na Netflix como um perigoso dono de construtora, e retornará à sétima temporada de "Impuros" como um playboy traficante.

Entre esses projetos, Gagliasso destaca a importância de sua primeira produção cinematográfica como realizador: "Clarice Vê Estrelas", um filme dedicado a sua filha Titi. O longa apresenta uma família negra de classe média como protagonista, com 80% do elenco e 90% da equipe sendo negra. É uma narrativa antirracista que coloca uma criança negra para sonhar e imaginar, em vez de sofrer, passar fome ou tomar tiro, uma representação rara no cinema brasileiro. O jogador Vinícius Júnior topou entrar como produtor associado do projeto.

Existência Versus Atuação: A Filosofia de Bruno Gagliasso

Questionado sobre como transita entre universos tão diferentes de personagens, Gagliasso afirma que busca existir e não atuar. Embora reconheça que não cheirará cocaína ao interpretar um viciado em "Impuros", o ator insiste em estar presente e autêntico. Para isso, conta com a ajuda de preparadores que facilitam seu encontro com o próprio ser. Sua incapacidade de separar trabalho e vida pessoal o leva a sair de casa durante as gravações, pois precisa "ficar pensando no personagem 24 horas".

Admira atores como Tony Ramos que conseguem manter essa separação, mas reconhece que sua natureza é diferente. Essa abordagem, embora exigente, produz resultados que o público percebe: quando um ator apenas finge, a audiência nota a diferença. Gagliasso prefere estar ali, verdadeiramente presente, mesmo que isso custe seu conforto pessoal.

A Desconstrução da Masculinidade Tradicional

Um dos temas mais provocativos abordados por Gagliasso é a redefinição da masculinidade moderna. Com a frase "Que homens são esses que não choram?", o ator questiona os paradigmas tradicionais que ensinaram gerações de homens a reprimir emoções. Para Gagliasso, se ser homem significa não chorar, ele simplesmente não quer ser homem. Se significa não usar roupas femininas, ele tampouco se importa, pois veste peças de sua companheira Giovanna Ewbank quando acha bonito.

O ator vai além: se ser homem significa dizer a outros homens como devem se comportar e tratar mulheres, ele rejeita essa definição completamente. Essa postura reflete seu compromisso em educar seus filhos de forma diferente, mostrando que homens choram, sentem e devem expressar suas emoções. Ele reconhece que essa é uma evolução necessária, passando por uma onda contrária de reação conservadora, mas acredita que quem verdadeiramente se preocupa em ser um bom exemplo deve fazer o oposto do que pregam os radicais.

Responsabilidade Social e Antirracismo

Gagliasso não se considera apenas um artista, mas alguém com responsabilidade social. Após viver o personagem de um torturador em "Marighella", sentiu-se obrigado a estar do lado certo da história. Ao interpretar o líder estudantil Honestino Guimarães, que desapareceu há 50 anos como prisioneiro político, o ator enfatiza que as lutas por justiça, liberdade e democracia ainda continuam.

Sua caminhada antirracista ganhou força quando sua filha Titi sofreu racismo. Esse evento doloroso o levou a reconhecer que demorou demais para pesquisar sobre o assunto e que brancos têm a responsabilidade de parar e buscar informação. Gagliasso considera fundamental a educação antirracista nas escolas e livros, e dedica-se a educar seu filho Zyan sobre as injustiças sociais que seu irmão negro enfrenta.

TDAH, Vaidade e a Priorização do Trabalho

O diagnóstico de TDAH de Gagliasso moldou sua trajetória profissional. Expulso de três escolas na infância, o ator toma medicação desde sempre. Não decora textos mecanicamente; prefere estudar e compreender o significado, pois para ele, falar uma palavra sem alma é inútil. Essa característica às vezes o coloca em situações cômicas, como quando dirigia para um estúdio e voltava com o motorista sem lembrar que tinha carro.

Quanto à vaidade estética, Gagliasso esclarece que já foi uma questão importante, especialmente sua estatura de 1,70m. Hoje, compensa com um tênis grande que o leva a 1,74m, mas confessa ter cansado de usar salto. Sua vaidade profissional, contudo, nunca será menor que sua vaidade pessoal. Prefere estar bem e estiloso, mas quando interfere no trabalho, o trabalho vence.

Perspectiva sobre Dinheiro e Legado

Sobre riqueza material, Gagliasso admite que gosta de dinheiro, mas gosta muito mais de tempo. Quer tempo para buscar a filha na escola, levar o cachorro ao veterinário e estar presente. O dinheiro, para ele, é ferramenta para produzir filmes, vestir o que deseja e proporcionar uma infância legal para seus filhos. Considera-se mais investidor e realizador do que empresário, tendo tido vários negócios que não deram certo.

Quanto às críticas sobre "progressismo performático" relacionado à adoção de filhos na África, Gagliasso responde com convicção: amor não tem CEP. Não escolheu ir para a África para se tornar pai; sua companheira encontrou o grande amor da vida dela durante uma visita. Enquanto outros se preocupam com sua vida, ele está vivendo e deixando um legado para seus filhos.

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