No coração do Centro do Rio, entre sobrados históricos, fachadas seculares e o burburinho cotidiano da Rua do Ouvidor, a Semana Santa volta a transformar a cidade em cenário de fé, tradição e memória. A Igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, uma das mais emblemáticas do Centro histórico - fundada em 1750, prepara mais uma vez uma programação que não é apenas religiosa, mas profundamente cultural — um verdadeiro mergulho em ritos que atravessam séculos e recriam, em pleno Rio de Janeiro, atmosferas que remetem à antiga tradição portuguesa.
Mais do que uma sequência de celebrações, trata-se de uma experiência sensorial rara na cidade contemporânea. Em alguns momentos, o Centro parece suspenso no tempo. Portas se fecham, sinos ecoam, vozes surgem das janelas, e o espaço urbano — tão acostumado ao comércio e à pressa — se converte em palco de um teatro litúrgico carregado de simbolismo. Promovida mais uma vez pela Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, a Semana Santa na Rua do Ouvidor atende aos amantes da música sacra, da liturgia e dos ritos tradicionais que ajudaram a construir o Centro do Rio como ele é hoje, revivendo cerimônias que a igrejinha elíptica dos mercadores - Casa da Padroeira dos Comerciantes - realizou seguidamente durante mais de dois séculos, revividas pela nova administração da Irmandade.
A abertura dessa vivência acontece no Domingo de Ramos, quando os fiéis se reúnem às 11h45, no emblemático Arco do Teles, para a procissão que marca o início da Semana Santa. Dali - bem em frente à sede do DIÁRIO, segue-se em direção à igreja um dos momentos mais singulares de toda a programação: a cerimônia de abertura das portas. Inspirado em antigos ritos da cidade de Braga, em Portugal, o ato é conduzido por um diálogo cantado entre o celebrante e um coral posicionado nas janelas — tradição que será novamente revivida com o apoio do próprio Diário do Rio, de onde partirão as vozes que respondem às invocações. As portas da igreja permanecem fechadas até que, ao final do diálogo, se abrem solenemente, dando início à Missa de Ramos, celebrada com coral e orquestra. A soprano Juliana Sucupira e seu Coral Astorga comandam o espetáculo à parte que torna as cerimônias ainda mais piedosas e vem emocionando multidões desde 2023, quando a capelinha dos comerciantes foi reaberta.
Na segunda-feira, o tom torna-se mais introspectivo com o Ato Devocional da Coroa das Dores de Nossa Senhora, às 17h30, reunindo fiéis em torno de uma das mais profundas expressões de piedade mariana. A celebração contará com a condução do padre Thiago Lemos, ao lado do padre Victor Hugo, e será marcada por um dueto de vozes e órgão, reforçando a atmosfera de recolhimento e contemplação.
A terça-feira traz o Ofício de Trevas, também às 17h30, um dos ritos mais impactantes da tradição católica. A igreja mergulha na penumbra, com as velas do histórico candelabro - chamado tenebrário - sendo apagadas uma a uma, restando apenas uma vela acesa, símbolo da luz que persiste mesmo diante da escuridão. A cada momento da celebração, essa luz vai sendo progressivamente ocultada, numa dramatização litúrgica que remete à Paixão de Cristo, acompanhada por música sacra executada em dueto de vozes e órgão.
Na quarta-feira, a programação se volta à preparação espiritual dos fiéis, com a Celebração Penitencial e atendimento de confissões, novamente às 17h30. É um convite à introspecção, ao exame de consciência e à reconciliação, em uma igreja que, ao longo dos séculos, sempre foi espaço de acolhimento no coração da cidade.
Na Quinta-feira Santa, a liturgia alcança um de seus momentos mais densos de significado com a Missa da Ceia do Senhor e o tradicional rito do lava-pés, às 17h30. O lava-pés dos mercadores é uma tradição de mais de 200 anos. Em um gesto que remonta diretamente ao Evangelho, doze comerciantes — herdeiros vivos da vocação mercantil que deu origem à própria igreja — têm os pés lavados, numa cena que une fé, história e cidade de forma quase indissociável. A celebração contará ainda com a presença de importantes lideranças do comércio carioca, como o presidente da Fecomércio, Antônio Florêncio Queiroz e o presidente do Sindilojas, Aldo Gonçalves, e diversos outros comerciantes de grande relevância para a cidade do Rio de Janeiro, reforçando o elo histórico entre a igreja e a vida econômica da cidade e do Centro, que luta por sua revitalização. Não é apenas uma cerimônia: é a própria Rua do Ouvidor, com seus séculos de comércio e convivência, que se vê representada no altar. Presidida pelo padre Victor Hugo e acompanhada por coral e orquestra, a celebração adquire uma força singular, capaz de traduzir, em gesto e música, a permanência de uma tradição que segue pulsando no coração do Rio.
Na Sexta-feira Santa, às 15h00, ocorre o Solene Ato Litúrgico da Paixão do Senhor, seguido da tradicional cerimônia do Beijo da Cruz. A liturgia, marcada pela sobriedade e pelo silêncio, convida à contemplação profunda do mistério da Paixão, com música sacra executada em dueto de vozes e matracas, preservando a tradição sonora característica desse dia.
O ápice da Semana se dá no Sábado de Aleluia, às 18h15, quando o espaço urbano volta a ser protagonista. A celebração começa fora da igreja, na esquina da Rua do Rosário com a Rua dos Mercadores. Ali, diante de uma grande fogueira, são abençoadosu o Fogo Novo e o Círio Pascal — símbolos da luz de Cristo que vence as trevas. Uma grande procissão com velas acompanha o traslado do Círio até a igreja. Em seguida, já no interior da igreja, durante o canto do “Glória”, os sinos voltam a tocar com intensidade, enquanto flores e panos roxos caem, marcando visualmente a passagem da dor para a alegria da Ressurreição. O momento é acompanhado por um coral completo, com quinze vozes, criando um espetáculo litúrgico de rara beleza.
A celebração se encerra no esperado Domingo de Páscoa - ponto alto da liturgia católica - às 12h00, com Missa Solene, novamente com coral e orquestra, celebrada pelo padre Victor Hugo. É o momento da alegria plena, da luz e da renovação — um fechamento que reafirma não apenas a fé, mas também a permanência de tradições que resistem ao tempo.
Ao longo de toda a programação, a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores reafirma seu papel como guardiã de uma herança espiritual e cultural que transcende o religioso. Em pleno Centro do Rio, entre ruas que testemunharam séculos de história, a Semana Santa não é apenas celebrada — ela é vivida, encenada e sentida, transformando a cidade em um raro encontro entre passado e presente.
A Lapa dos Mercadores tem cerca de 150 lugares sentados, e costuma ficar bastante cheia durante a semana santa. A cerimônia do Sábado de Aleluia - bastante longa mas com música de altíssima qualidade - é o ponto
