Impacto Devastador das Ondas de Calor na Saúde Brasileira
Um estudo abrangente realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA) revelou dados alarmantes sobre o impacto das ondas de calor na mortalidade brasileira. Ao cruzar históricos detalhados de temperaturas com registros de óbitos, os pesquisadores identificaram que, entre 2000 e 2019, as ondas de calor causaram mais de 120 mil mortes no país. Esses eventos extremos de temperatura explicam aproximadamente 0,6% da mortalidade total registrada no Brasil durante este período de duas décadas.
Embora a pesquisa não projete a progressão futura do fenômeno, os autores indicam que as mudanças climáticas tendem a intensificar o peso desses eventos extremos sobre a saúde pública brasileira nos próximos anos.
Mecanismos Fisiológicos e Vulnerabilidades
Para compreender por que o calor extremo afeta tanto a mortalidade, é essencial entender o funcionamento do corpo humano sob essas condições. Quando uma pessoa está exposta a muito calor, o corpo produz uma reação fisiológica para manter a temperatura corporal entre 36,5°C e 37°C, intervalo ótimo para nossas funções vitais. Segundo Beatriz Oliveira, cientista coautora do trabalho, quando essa exposição ocorre em conjunto com esforço físico, uso de roupas inadequadas e outros fatores, o corpo pode não conseguir dissipar o calor adequadamente.
Essa falha nos mecanismos de termorregulação sobrecarrega sistemas críticos, comprometendo principalmente as funções cardiovasculares e respiratórias. Os problemas renais também se destacaram como condição médica relevante no estudo.
Metodologia Precisa e Mapeamento Nacional
Os cientistas utilizaram uma metodologia inovadora ao mapear a variação local de temperatura em todo o país com precisão de 9 quilômetros. Cruzando esses dados com informações específicas nos registros de óbitos, conseguiram identificar o efeito do calor em problemas de saúde por ele agravados. O estudo considerou como critério que uma onda de calor é um período de 48 horas no qual a temperatura está acima do percentil 95% da média histórica de temperatura daquele local específico.
O mapeamento nacional revelou uma relação clara entre esses eventos extremos e as mortes por causas agravadas pelo calor intenso. Conforme explica Oliveira, essas 120 mil mortes podem ser interpretadas como o número de óbitos diretamente atribuídos aos eventos de calor extremo.
Populações Mais Vulneráveis
A análise evidenciou que os idosos foram os mais afetados pelas ondas de calor, representando 80% do total de mortes. Mais de 97 mil óbitos de pessoas com 65 anos ou mais foram associados a esses eventos. Os idosos possuem mais limitações em manter os mecanismos de homeostase corporal para o controle de temperatura, tornando-os particularmente vulneráveis.
O estudo também avaliou o impacto na quantidade de internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Nessa análise, as crianças se mostraram como grupo de risco relevante, afetadas por problemas gastrointestinais além dos efeitos diretos do calor. As crianças são extremamente vulneráveis à desidratação, e o calor estimula a proliferação de micro-organismos de transmissão por via oral, tanto em alimentos contaminados quanto em água imprópria para consumo.
Desigualdades Sociais e Acesso a Proteção
Um fator crucial que amplificou o impacto foi o grau de escolaridade das vítimas. Os pesquisadores usaram a quantidade de anos de estudo como indicador indireto de acesso a ambientes com temperatura controlada, como residências com ar-condicionado, e da qualidade do atendimento de saúde, considerando hospitais privados melhor preparados.
A variação regional foi menor que o esperado inicialmente. Enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste apresentaram os maiores valores em dias de ondas de calor, as regiões Sudeste e Sul tiveram eventos relativamente mais intensos, com o Nordeste em valores intermediários. O Amapá registrou o maior impacto de letalidade, com 1,07% das mortes atribuídas ao fenômeno, enquanto a Paraíba foi menos impactada com 0,30%. São Paulo e Rio de Janeiro ficaram próximos à média nacional.
Recomendações e Chamado à Ação Pública
Os pesquisadores enfatizam que as autoridades devem reconhecer as ondas de calor e o calor extremo como riscos prioritários para a saúde pública. Beatriz Oliveira destaca que, apesar dos eventos frequentes em 2023 e 2024, pouquíssimos locais declararam emergência por ondas de calor.
As recomendações incluem estabelecer sistemas de monitoramento que permitam às prefeituras e ao SUS antecipar impactos, além de campanhas que estimulem mudanças culturais. É necessário que a população compreenda que eventos extremos exigem proteção e redução de exposição, com mudanças de horários para atividades físicas e proteção especial para trabalhadores expostos ao sol, intercalando trabalho com hidratação e pausas adequadas.
Perspectivas Futuras da Pesquisa
A intenção do estudo da Fiocruz é estimular mais pesquisas na área que cubram limitações do trabalho atual. Uma das limitações importantes foi o uso de dados apenas até 2019, pois a pandemia de Covid-19 tornou difícil identificar e isolar o impacto das ondas de calor após aquele ano. Novos dados serão essenciais para guiar adequadamente as políticas públicas de saúde no país.
