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BNDES investe R$ 20 milhões na preservação e desenvolvimento da Pequena África no Rio de Janeiro

BNDES investe R$ 20 milhões na preservação da Pequena África, histórico polo de cultura afro-brasileira no Rio de Janeiro, com requalificação urbana e empreendedorismo
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Amanda Clark

A Pequena África: berço da cultura afro-brasileira no Rio de Janeiro

A região conhecida como Pequena África, nome cunhado pelo artista plástico, figurinista e sambista Heitor dos Prazeres (1898-1966), representa um dos territórios mais significativos para a preservação da memória africana no Brasil. Abrangendo bairros como Gamboa, Saúde, Santo Cristo, Centro, Cidade Nova e Estácio, esta área é palco histórico de resistência cultural e constitui um importante acervo para a compreensão da trajetória negra no país.

O território abriga espaços emblemáticos para a história brasileira, como o Cais do Valongo, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade. Este local foi, nas primeiras décadas do século 19, o principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas. Além disso, a região preserva a Pedra do Sal, cenário das primeiras rodas de samba cariocas, o Cemitério dos Pretos Novos, onde foram enterrados milhares de africanos que morreram logo após chegar ao Brasil, e o Morro da Providência, considerada a primeira favela do país.

Requalificação urbana como estratégia de desenvolvimento

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem investido na valorização da memória negra através de um amplo programa de requalificação urbana do território. Conforme explica Aloizio Mercadante, presidente da instituição, o objetivo é consolidar a Pequena África como um grande polo internacional de cultura afro-brasileira e turismo de memória, articulando patrimônio histórico, mobilidade urbana, gastronomia, música, religiosidade, empreendedorismo criativo, educação patrimonial e desenvolvimento econômico local.

O Distrito Cultural da Pequena África representa uma iniciativa estruturada do BNDES, desenvolvida com apoio técnico do Consórcio Valongo Patrimônio Vivo. No final de 2025, foi entregue o masterplan preliminar, que apresentou uma visão integrada para o território, considerando suas dimensões urbanísticas, ambientais, culturais, sociais e econômicas. O projeto propõe a requalificação de praças e espaços públicos, a criação de percursos culturais, a melhoria da mobilidade e a ativação de áreas subutilizadas.

Viva Pequena África: investimento de R$ 20 milhões em cultura

O programa Viva Pequena África foi idealizado pelo BNDES para preservar, difundir e promover a memória e herança cultural africana no Brasil. Com valor total de R$ 20 milhões, sendo metade aportada diretamente pelo banco e metade por outros financiadores, o projeto é gerido por uma coalização formada por Ceap, Diaspora.Black e Feira Preta, selecionadas em chamada pública.

Em maio de 2025, foi lançado o primeiro edital de seleção de projetos culturais, destinando até R$ 5 milhões ao fortalecimento de instituições culturais atuantes no território. As dez instituições selecionadas receberam não apenas doação de recursos, mas também apoio através de um ciclo formativo estruturado, composto por 16 encontros presenciais com foco em fortalecimento institucional e sustentabilidade organizacional.

Rede Memória Viva e afroturismo nacional

Uma importante entrega esperada para 2026 é o lançamento do edital da Rede Memória Viva, ação que conectará e promoverá, nacional e internacionalmente, organizações dedicadas à preservação da memória africana no Brasil. Conforme afirma Antônio Pita, diretor da Diaspora.Black: identificar outras Pequenas Áfricas no Brasil significa reconhecer territórios que preservam a memória viva da população negra e impulsionam o afroturismo como estratégia de desenvolvimento econômico.

Todas as organizações inscritas que preencherem os requisitos técnicos receberão capacitação para desenvolvimento de afroturismo e outras atividades relacionadas. Será feito também um mapeamento de territórios representativos da herança africana no país, fomentando integração entre eles.

Festival Feira Preta reafirma compromisso com a cultura negra

Entre as ações apoiadas pelo BNDES, destaca-se a realização, de 29 a 31 de maio, no Píer Mauá, de nova edição do Festival Feira Preta, um dos maiores eventos de cultura e empreendedorismo negro da América Latina. O festival conecta cultura, economia criativa e identidade negra através de shows, palestras, gastronomia e feira de empreendedores negros.

Durante o evento, o BNDES contará com um espaço para exposição de fotografias e vídeos imersivos das ações estruturadas no território, além de exibição de filmes com temática racial patrocinados pela entidade. Conforme comenta Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta: a historicidade da Pequena África é um ativo importante, e queremos potencializar tudo o que esse território tem a oferecer ao Brasil e aos seus moradores.

Memória como desenvolvimento econômico

O presidente do BNDES ressalta que memória também é desenvolvimento econômico, turismo, educação, economia criativa e projeção internacional. Contudo, enfatiza que nada disso teria sido preservado sem o trabalho histórico de resistência de organizações, coletivos culturais, instituições religiosas, sambistas, lideranças comunitárias e entidades do movimento negro que atuam há décadas no território.

O investimento do BNDES na Pequena África representa um reconhecimento dessa trajetória de resistência e um fortalecimento de quem sempre sustentou essa memória viva, transformando preservação cultural em oportunidade de desenvolvimento econômico para a região e seus moradores.

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