A ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, hoje coordenadora do núcleo econômico da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), afirmou a jornalistas em Belo Horizonte que o principal problema da atual gestão do país é o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A declaração foi dada na sexta-feira (4), antes de um encontro com lideranças empresariais na sede da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), no bairro Funcionários, e passou a circular em cortes de vídeo nas redes sociais nos dias seguintes.
Questionada sobre seu diagnóstico do governo, Marques respondeu com uma frase curta: "O problema é o Lula". Em seguida, acusou o presidente de faltar com a verdade ao tratar da proposta que põe fim à escala 6x1, dizendo ter assistido a uma entrevista, a caminho de Minas, em que ele afirmava que a mudança não afetaria ninguém.
Quem é a autora da declaração
Marques foi a primeira mulher a presidir a Caixa, entre julho de 2022 e janeiro de 2023, no fim do governo Jair Bolsonaro; antes disso, atuou na Secretaria de Produtividade e Competitividade do então Ministério da Economia, sob Paulo Guedes. Chegou a ser cogitada como candidata a vice na chapa de Flávio Bolsonaro quando ainda era filiada ao Republicanos e, em agosto deste ano, migrou para o PL para assumir a coordenação da área econômica da campanha do senador.
A agenda mineira foi confirmada previamente pela própria Fiemg, que informou que ela apresentaria uma análise das perspectivas econômicas do país, do cenário para investimentos e dos desafios do ambiente de negócios. A passagem por Belo Horizonte segue o roteiro que ela vem cumprindo em capitais: em Florianópolis, apresentou a empresários o programa Minha Primeira Empresa, que propõe transformar a assistência social em porta de entrada para o empreendedorismo, com capacitação técnica e orientação financeira oferecidas no momento em que o trabalhador dá entrada no seguro-desemprego.
O que a oposição vem sustentando
O eixo do discurso econômico da campanha do PL é fiscal. Em evento no Rio de Janeiro, no fim de agosto, Marques disse que a prioridade de um eventual governo Flávio Bolsonaro seria o ajuste das contas públicas, com redução da estrutura do governo federal, combate a supersalários e privilégios e digitalização de serviços públicos. Na mesma ocasião, classificou o debate sobre o fim da 6x1 como populista e defendeu que trabalhador e empregador tenham mais liberdade para negociar contratos sem interferência do Estado; segundo ela, a campanha projeta uma máquina federal de 20 a 25 ministérios, ante os 38 atuais.
A proposta que ela critica é uma das bandeiras de Lula na tentativa de reeleição. O texto reduz de 44 para 40 horas o limite da jornada semanal e estabelece pelo menos dois dias de folga por semana, o que encerraria o modelo de seis dias de trabalho para um de descanso. No setor produtivo, a resistência é antiga: a Fiemg calcula que a mudança pode afetar o PIB em até 16% e eliminar cerca de 18 milhões de postos de trabalho, e defende que alterações na jornada saiam de negociação coletiva, respeitando a realidade de cada setor.
O que o governo apresenta em resposta
Do outro lado, a campanha governista trabalha com indicadores. Dados do IBGE mostram a taxa de desocupação, que rondava dois dígitos em 2022, em patamar próximo de 6% em 2026, o nível mais baixo da série; o IPCA passou a oscilar em torno de 4% ao ano. O IPCA-15 de agosto deste ano registrou deflação de 0,40%, com alívio nos alimentos somado à retração na conta de luz. O rendimento médio do trabalhador também vem batendo recordes na série histórica do instituto.
A leitura desses números, porém, não é consensual nem dentro do campo governista. Análises publicadas às vésperas do início oficial da campanha apontam a distância entre o otimismo dos indicadores e a percepção da população, que segue com dificuldade para fechar as contas no fim do mês mesmo com desemprego em baixa e renda em alta. A economista Juliane Furno avalia que os juros elevados podem anular parte dos efeitos positivos, ao enfraquecer consumo e crédito. Críticos da comunicação oficial apontam ainda que os balanços do governo evitam o tema da inflação acumulada, item que mais pesa na avaliação do eleitor.
Por que a fala repercute agora
A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto, com votação marcada para outubro. Nesse calendário, declarações de coordenadores econômicos deixam de ser análise técnica e viram material de disputa: o corte da frase em Belo Horizonte ganhou tração nas redes justamente por resumir, em cinco palavras, a estratégia da oposição de personalizar o desgaste econômico na figura do presidente. Marques avalia que, apesar da crise institucional em curso, a economia é que deve prevalecer como tema da campanha, com desemprego e perda de poder de compra no centro da preocupação do eleitorado.
A reportagem não localizou, até a publicação, resposta formal da campanha de Lula à declaração feita em Belo Horizonte.
Fontes:
- O Tempo — Integrante da equipe de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques tem agenda na Fiemg
- Blog Jair Sampaio — Coordenadora do plano econômico de Flávio Bolsonaro diz que o principal problema do país "é o Lula"
- Notícias ao Minuto — Coordenadora da campanha de Flávio Bolsonaro critica debate sobre 6x1
- Imirante — Coordenadora de Flávio critica fim da escala 6x1 e defende ajuste fiscal
- ND Mais — Daniella Marques revela plano econômico de Flávio Bolsonaro em Florianópolis
- Rádio Itatiaia — Fiemg defende votação do fim da escala 6x1 após a eleição
- Brasil de Fato — Lula vs Bolsonaro: um comparativo entre a economia nos dois governos
- Estado de Minas — Daniella Marques e o plano econômico para a candidatura de Flávio
