O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (13) que não considera o endividamento das famílias um problema em si. Para ele, o que separa a dívida boa da ruim é o destino do dinheiro: crédito usado para comprar bens e ampliar patrimônio seria aceitável; dívida contraída em apostas online, não. A declaração foi feita em Brasília, durante a apresentação dos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) Mensalizada, uma semana depois de a Confederação Nacional do Comércio (CNC) divulgar que o endividamento das famílias brasileiras chegou ao maior nível já registrado pela entidade.
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O que o presidente disse
"Eu não sou contra as pessoas estarem endividadas", declarou Lula no evento, realizado no Ministério do Trabalho e Emprego com a presença dos ministros Luiz Marinho (Trabalho) e Dario Durigan (Fazenda). Segundo o presidente, financiamentos para comprar casa ou carro configuram o que ele chamou de "uma dívida boa e necessária". Lula citou televisão, roupas, calçados, material escolar e telefone entre os itens cujo consumo, na avaliação dele, o governo deveria estimular — desde que dentro do que cada família consegue pagar. O contraponto veio em seguida, quando o presidente se referiu às apostas de quota fixa como uma "desgraça" e disse que o apostador tende a jogar de novo para cobrir o prejuízo da aposta anterior, entrando num ciclo que pode levar ao superendividamento.Endividamento em alta, inadimplência em queda
A pesquisa que serviu de pano de fundo para a declaração é a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), divulgada pela CNC em 6 de agosto com dados apurados em julho. Ela ouve 18 mil famílias em todo o país e considera cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa. O número que ganhou as manchetes: 82% das famílias declararam ter dívidas a vencer, contra 81,6% em junho e 78,5% em julho de 2025. É o sexto recorde consecutivo da série da entidade. Vale a distinção, porque os dois indicadores costumam ser confundidos. Ter dívida não é o mesmo que estar em atraso. E a inadimplência — a fatia de famílias com contas vencidas e não pagas — recuou de 29,9% em junho para 29,8% em julho, abaixo dos 30% de um ano antes. O tempo médio de atraso caiu pelo terceiro mês seguido, para 64,6 dias, e a parcela de inadimplentes com contas vencidas há mais de 90 dias baixou para 48,5%. A CNC atribui parte dessa melhora ao Desenrola 2.0, programa federal de renegociação disponibilizado em 5 de maio.A pressão se concentra na base
O quadro muda conforme a faixa de renda. Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, o endividamento subiu para 84,9% em julho, também recorde. Esse foi o único grupo em que as contas em atraso aumentaram no mês, de 38,3% para 38,5%. E foi o único a puxar para cima a parcela de quem afirma não ter condições de quitar as pendências: 17,8%, ante 17,6% em junho. No outro extremo, as famílias com renda acima de dez salários mínimos registraram a maior alta de endividamento no ano (+4,1 pontos percentuais, para 72%), mas com inadimplência em queda, de 15,4% para 15,1%. Há ainda um dado que a própria CNC classificou como ponto de pressão no orçamento doméstico: a fatia de famílias com mais da metade da renda mensal comprometida com dívidas subiu para 19% em julho, maior nível desde março. Na média, o consumidor endividado destina 29,5% do que ganha ao pagamento de credores. Para o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, os números indicam que "é preciso avançar em medidas que aliviem o bolso do trabalhador". O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, avaliou que o corte da Selic de 14,25% para 14% ao ano tende a baratear novas operações de crédito e facilitar renegociações, mas ponderou que o efeito não é imediato e que a recuperação do poder de compra das famílias será gradual.Emprego em alta, salário médio em queda
Os dados da Rais apresentados no mesmo evento mostram um mercado de trabalho em expansão. O estoque de vínculos formais chegou a 62,89 milhões em junho de 2026, com acréscimo de 10,1 milhões desde janeiro de 2023 — crescimento de 19,1% no período. A participação feminina no emprego formal passou de 44,2% para 46,4%. O outro lado do mesmo levantamento é menos favorável. Entre 31 de dezembro de 2025 e junho de 2026, a massa salarial recuou 3,3%, de R$ 249,1 bilhões para R$ 240,8 bilhões. A remuneração média caiu 2,9% no mesmo intervalo, de R$ 4.522,29 para R$ 4.389,49. Ou seja: mais gente empregada, ganhando menos em média — combinação que aparece no comprometimento de renda medido pela CNC.O cerco às bets
No mesmo evento, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, informou que cerca de 800 mil pessoas tiveram o CPF bloqueado em plataformas de apostas após aderirem ao Desenrola 2.0. Pelas regras do programa, quem renegocia dívida com instituição financeira fica impedido de apostar online por pelo menos seis meses. Somando os grupos, o governo calcula que aproximadamente 5 milhões de brasileiros estão hoje impedidos de apostar: 3 milhões de beneficiários de programas sociais, por determinação do Supremo Tribunal Federal; 1,2 milhão que optaram pela autoexclusão voluntária no portal gov.br, ferramenta disponível desde dezembro; e os 800 mil do Desenrola. Na autoexclusão voluntária, o cidadão escolhe prazos de um, três, seis ou doze meses, ou por tempo indeterminado, e não pode reverter a decisão antes do fim do período. O Desenrola 2.0, lançado em 5 de maio, teve o prazo prorrogado no fim de julho até 31 de agosto, a pedido de bancos e de interessados que já haviam iniciado o atendimento.O que vem pela frente
A CNC projeta que o endividamento siga subindo e chegue a 82,6% em setembro, com a inadimplência em 30,3%. A trajetória depende, em boa medida, do ritmo de queda dos juros: a Selic foi reduzida para 14% ao ano em agosto, e novos cortes estão condicionados ao comportamento da inflação.Fontes:
