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População em Situação de Rua na Grande Tijuca: Desafios da Assistência Social e Necessidade de Políticas Integradas

Crescimento de população em situação de rua na Grande Tijuca desafia rede de assistência social. Conheça políticas e soluções necessárias.
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Amanda Clark

A Realidade da População em Situação de Rua na Grande Tijuca

A Grande Tijuca, formada pelos sete bairros de Andaraí, Alto da Boa Vista, Grajaú, Maracanã, Praça da Bandeira, Tijuca e Vila Isabel, enfrenta um crescimento significativo de pessoas vivendo nas ruas. Entre as encostas do Maciço da Tijuca e áreas de intenso comércio, essa região consolidou-se como importante centro de serviços, mas também concentra desigualdades sociais marcantes. Quem transita diariamente pelas proximidades do metrô da Praça Saens Peña depara-se com realidades de vulnerabilidade: mulheres que perderam empregos e não conseguem custear moradia, casais que migraram em busca de trabalho e acabaram na rua, histórias diversas unidas pela mesma condição de desabrigamento.

Uma enquete realizada pelo GLOBO com leitores da região revelou que 45,5% dos participantes apontam a presença de pessoas em situação de rua como principal preocupação, superando reclamações sobre roubos e furtos (36,6%). Esse levantamento reflete uma realidade presente nas conversas de moradores e comerciantes, tornando-se tema central nas demandas recebidas pela Nova Tijuca, a Associação Empresarial e de Moradores da região.

Crescimento Pós-Pandemia e Visibilidade Urbana

De acordo com João Alberto Britto, presidente da Nova Tijuca, nos últimos três ou quatro anos intensificaram-se relatos sobre pessoas dormindo em praças, calçadas, marquises e entradas de estabelecimentos. A população em situação de rua cresceu significativamente no período pós-pandemia, não apenas na Grande Tijuca, mas em todo o Rio de Janeiro, tornando-se visível em ruas, praças e áreas comerciais de toda a região.

Essa visibilidade maior em determinados bairros, explica o sociólogo Dário de Sousa e Silva Filho, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, relaciona-se às estratégias de sobrevivência disponíveis. Regiões comerciais e de grande circulação oferecem mais possibilidades de obtenção de alimentos, doações, renda informal e abrigo temporário. As áreas movimentadas envolvem trânsito de pessoas e visibilidade, enquanto serviços públicos muitas vezes não estão disponíveis na periferia.

Desconstruindo Preconceitos e Entendendo Raízes Complexas

Para o sociólogo, é necessário afastar o pressuposto de que toda pessoa na rua é um potencial agente de violência. Essas pessoas são, com frequência, sujeitas à violência e discriminação. Não há uma única trajetória que leve alguém às ruas: desemprego prolongado, precarização do trabalho, violência doméstica, condições psiquiátricas, abandono familiar, expulsão de comunidades pelo tráfico ou pelas milícias e diferentes formas de perda da moradia estão entre as causas possíveis, todas agravadas pela pobreza.

Rede de Assistência Social na Região

A Secretaria municipal de Assistência Social realiza abordagens diariamente nos sete bairros da Grande Tijuca. De janeiro a junho de 2026, foram contabilizados 13.504 atendimentos, resultando em 561 acolhimentos institucionais. Nas abordagens, as equipes realizam busca ativa, escuta e atendimento individualizado, oferecendo orientação para emissão de documentos, acesso a benefícios sociais e encaminhamento para acolhimento institucional.

O Consultório na Rua, vinculado à Secretaria municipal de Saúde, complementa essa assistência com equipes formadas por médicos, enfermeiros, assistentes sociais e técnicos de enfermagem. Em 2025, realizou 50.308 atendimentos na Grande Tijuca, oferecendo consultas, vacinação, testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis, curativos e encaminhamentos para outros equipamentos da rede.

Limitações da Rede Atual e Propostas de Melhoria

Para o Fórum Permanente de Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua, o volume de atendimentos evidencia a demanda, mas a abordagem social precisa estar articulada a políticas de saúde, moradia, trabalho e renda. Cláudio Santos, coordenador do fórum, aponta que o município conta com apenas dois Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua, ambos localizados no Centro e em Bonsucesso. A descentralização da rede poderia facilitar acesso a benefícios, alimentação, higiene, saúde e acolhimento.

Santos sintetiza as políticas necessárias em três eixos fundamentais: teto, trabalho e tratamento. Quem passa muito tempo na rua precisa de moradia, acompanhamento de saúde e oportunidade de trabalho para reconstruir uma rotina. A oferta de políticas habitacionais é apontada como eixo primordial, devendo as unidades de acolhimento funcionar como resposta emergencial, sem substituir programas de aluguel social, moradia subsidiada ou inserção em projetos habitacionais.

Diversidade de Perfis e Necessidade de Soluções Personalizadas

As respostas também precisam considerar a diversidade dos perfis encontrados nas ruas. Pessoas idosas, mulheres vítimas de violência, trabalhadores que perderam recentemente a renda e pessoas com transtornos mentais demandam atendimentos diferenciados. Silva Filho destaca que a conexão entre os serviços estatais é obrigatória para qualquer solução duradoura.

Outro obstáculo identificado é a separação de pessoas que vivem acompanhadas de cães, usados como companhia e proteção. A impossibilidade de levar o animal para determinadas unidades influencia a recusa da vaga oferecida. Além disso, horários rígidos, forma de tratamento e falta de continuidade após o pernoite explicam parte das recusas de acolhimento.

Retirar pessoas de praças, calçadas e marquises sem oferecer alternativas apenas transfere a situação para áreas menos visíveis, sem resolver o problema. A nomeação dessa população no debate público também merece atenção: ninguém é morador de rua, porque a rua é o avesso da moradia, sendo a situação de rua resultado da negligência de diversos direitos pela pobreza, discriminação e práticas inadequadas das instituições públicas.

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