O poder transformador do acolhimento familiar
Como uma decisão pessoal pode transformar completamente a vida de mais de 20 crianças? Esta é a pergunta que a técnica de laboratório Laide de Oliveira respondeu há 12 anos, quando decidiu abrir sua casa através do programa Família Acolhedora da Prefeitura do Rio de Janeiro. Sua motivação surgiu ao conhecer a história de uma mulher que doou um rim para uma criança acolhida, despertando nela o desejo de compreender a profundidade daquele tipo de amor incondicional.
A decisão de Laide e seu esposo de participar do programa foi estratégica: eles se inscreveram aceitando crianças da mesma idade de seus filhos biológicos para facilitar a rotina familiar. Como ela mesma afirma: "A infância não espera o amanhã, ela precisa ser cuidada hoje".
O que é o programa Família Acolhedora
O programa Família Acolhedora é uma iniciativa da Prefeitura do Rio em parceria com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), dedicado ao acolhimento provisório de crianças e adolescentes que foram vítimas de violação de direitos e afastados de suas famílias de origem por medida protetiva. Neste domingo, 31 de maio, celebra-se o Dia Mundial do Acolhimento Familiar, reforçando a importância dessa ação social.
O acolhimento ocorre na casa de famílias voluntárias previamente cadastradas e capacitadas, com acompanhamento técnico constante de assistentes sociais e psicólogos. As famílias acolhedoras recebem um auxílio financeiro para custear os cuidados: R$ 1.400 mensais para crianças com cuidados regulares, e R$ 2.030 para aquelas que demandam cuidados especiais.
O impacto na vida das crianças
Segundo a juíza titular da 1ª Vara de Infância e Juventude Protetiva da Capital, Lysia Maria Mesquita, a Família Acolhedora funciona como uma família transitória que abraça a criança, mantendo uma vida de convívio familiar genuíno. Nesse ambiente seguro, a criança aprende seus limites, potencialidades e aptidões, desenvolvendo autoconhecimento e aprendendo, através do exemplo, valores como empatia, responsabilidade e afeto.
Erick: de institucionalizado a estudante universitário
Erick Costa, 22 anos, é hoje estudante de Serviço Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua trajetória ilustra perfeitamente o impacto transformador do acolhimento. Após três anos em uma instituição pública, conseguiu se juntar à mesma família acolhedora que suas irmãs estavam. Um episódio marcante em sua infância mudou seu curso: ao brigar com um colega na escola, esperava ser punido, mas sua acolhedora o fez refletir sobre seu comportamento através de uma conversa empática. Como ele relata: "Aquela conversa foi algo novo para mim. Percebi que eu não era mais uma criança institucionalizada, era uma criança com uma família".
Os desafios do acolhimento no Rio
Apesar da importância do programa, os números revelam um cenário preocupante. No Estado do Rio de Janeiro, há 1.557 crianças e adolescentes em acolhimento institucional. Porém, apenas 8% estão em famílias acolhedoras, conforme dados do Censo Módulo Criança e Adolescente 2025 do Ministério Público do Rio. Na cidade do Rio, há apenas 121 famílias cadastradas no Serviço Família Acolhedora, sendo que 68 famílias acolhem atualmente 110 crianças e adolescentes.
Acolher é um ato de amor e responsabilidade
Alessandra Queiroz, servidora estadual na área de segurança pública, é uma daquelas que abriram seu lar para pequenos durante a pandemia da Covid-19. Desde então, já recebeu seis crianças, a maioria bebês. Dividindo seu tempo entre trabalho, criação de seu filho biológico e cuidados com os bebês acolhidos, ela oferece orientação valiosa: "Acolher é um ato de amor, porém exige grande responsabilidade". Ela esclarece que cada criança tem particularidades, e quando se trata de bebês, os cuidados são ainda maiores. Para aqueles que temem o apego, seu conselho é direto: "Não pense no apego. Pense que seu amor pode salvar aquela criança, dando-lhe uma oportunidade de recomeço".
Avanços na adoção internacional
Recentemente, na última sexta-feira 29 de maio, foi realizada a 27ª Reunião do Conselho das Autoridades Centrais Brasileiras (CACB) para deliberar sugestões e aprovar resoluções visando melhorar o trabalho da rede de promoção da adoção internacional. O encontro no Fórum Central do Rio reuniu membros dos tribunais de Justiça estaduais e das Comissões Estaduais Judiciárias de Adoção. Entre as resoluções aprovadas, destacam-se a consulta ao Conselho Nacional de Justiça sobre acesso ao cadastro de pretendentes habilitados, a construção de formulários padrão bilíngues, e maior garantia do cumprimento da Convenção da Haia sobre Proteção das Crianças e Cooperação em Matéria de Adoção Internacional.
