Queda Significativa de Candidatos Religiosos nas Eleições de 2026
As eleições de 2026 apresentam uma redução notável no número de candidatos que declaram identidade religiosa. Entre os mais de 20 mil postulantes que disputarão as urnas em outubro, apenas 2,7% têm uma identidade religiosa explícita, conforme levantamento realizado com base nos dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Este número representa um recuo significativo em relação aos 3,09% registrados em 2022, quando foi alcançado o recorde deste século, aproximando-se dos 2,5% observados em 2018.
A mudança reflete transformações importantes no cenário político brasileiro. Em 2022, a presença de candidatos religiosos atingiu seu pico, impulsionada pela ligação entre Jair Bolsonaro e líderes evangélicos, que colocaram a fé como pauta central nos discursos políticos. Agora, essa tendência apresenta inversão clara.
Números Absolutos Revelam Diminuição de 38%
Foram mapeados 559 postulantes que relataram como ocupação "sacerdote ou membro de ordem ou seita religiosa" ou cujo nome carrega termos que fazem referência a alguma religião, como "padre", "irmão" ou "bispo", principalmente entre legendas de direita. Em relação aos 903 nomes identificados em 2022, houve uma diminuição de 38% em números absolutos, superando a queda geral de todas as candidaturas, que foi de quase 30% devido a mudanças nas regras eleitorais que incluem o fim das coligações em pleitos proporcionais.
A redução mais expressiva ocorreu entre candidatos que adotam a designação "pastor" ou "pastora", que caiu 48,7%, reduzindo-se praticamente pela metade: de 476 para 244 candidatos. Este dado evidencia transformações nas estratégias de campanha e na relação entre religião e política.
Análise Especializada Aponta Saturação do Tema
Segundo Lívia Reis, coordenadora de Religião e Política do Instituto de Estudos da Religião (ISER), a movimentação reflete mudanças próprias do campo político. "Em 2022, um limite parece ter sido ultrapassado de campanhas dentro de templos religiosos, o que impacta o pleito deste ano. Houve muitos conflitos, sobretudo em igrejas evangélicas. Esses espaços ainda serão usados para mobilização eleitoral, mas parece que esticaram demais a corda, vimos afastamento de fiéis", comenta a especialista.
Observa-se também que candidatos já experienciam transição estratégica. Alguns que utilizaram termos religiosos em campanhas anteriores deixaram de enfatizar essa identidade. O pastor evangélico Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do Partido Liberal na Câmara dos Deputados, exemplifica essa tendência: relatava como ocupação "sacerdote" em 2014, quando foi eleito pela primeira vez, mas passou a utilizar a profissão "deputado".
Composição Religiosa e Distribuição Geográfica
Dos 559 candidatos identificados, 70 relataram a ocupação "sacerdote ou membro de ordem ou seita religiosa"; 47 adotaram "irmão" ou "irmã"; 38 usaram "missionário" ou "missionária"; 32 utilizaram "bispo" ou "bispa"; 15 optaram por "cantor" e são artistas gospel; 12 usaram "apóstolo" ou "apóstola" e 11 adotaram "padre". Todos esses segmentos apresentaram diminuição em relação a 2022.
Termos ligados ao cristianismo continuam representando a grande maioria dos candidatos religiosos. Entretanto, houve um leve aumento de 26 para 27 postulantes que fazem menção a termos de religiões de matriz africana, como Mãe Su de Nanã e Pai Adriano Neres, que disputam cargos de deputada federal e deputado estadual por São Paulo.
Liderança do PL Entre Partidos com Candidatos Religiosos
O PL, do senador Flávio Bolsonaro, lidera com 61 candidaturas religiosas, crescimento de 58 para 61 em relação ao ciclo anterior. Em seguida, aparecem Republicanos com 51 candidatos e MDB com 43. Na outra ponta, PRTB conta com apenas um candidato, enquanto Cidadania tem 2, e PV e Missão possuem 3 cada. O PT, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apresentou leve aumento, de 14 para 17 candidatos religiosos.
Rio de Janeiro e São Paulo lideram geograficamente com 61 nomes cada, seguidos pela Bahia com 50, Pernambuco com 45 e Minas Gerais com 42. Estados como Mato Grosso e Amazonas registram apenas 4 candidatos religiosos cada.
Perfil Demográfico dos Candidatos Religiosos
Entre todos os 559 postulantes, 68,16% são homens e 68,16% são negros (47,41% pardos e 20,75% pretos). A maioria busca uma vaga na assembleia legislativa do seu estado (51,34%) ou na Câmara dos Deputados (41,50%). Apenas sete nomes disputam assento no Senado Federal, e três são candidatos a vice-governador, refletindo a concentração em cargos legislativos estaduais e federais.
