Um artista que reinventou a música brasileira
Aos 89 anos, completando 90 em 11 de outubro, Tom Zé permanece ativo e criativo, trabalhando em novos projetos musicais e consolidando um legado que transcendeu gerações. O baiano de Irará, que se tornou ícone da Tropicália, continua compondo, tocando violão e se apresentando em média uma vez por mês, prova de sua dedicação inabalável à arte.
Tom Zé gosta de contar histórias sobre sua trajetória, incluindo uma anedota sobre um jornalista estrangeiro que não conseguia compreender suas palavras. Essa dificuldade comunicativa inicial o levou a explorar formas visuais e fotográficas para expressar seu trabalho, demonstrando a criatividade que o caracteriza em toda sua carreira.
A segunda biografia de Tom Zé ganha destaque internacional
Após a publicação de "Tom Zé: o último tropicalista" (2019), do italiano Pietro Scaramuzzo, o artista receberá uma segunda biografia escrita pelo americano Christopher Dunn. Intitulada "Stray dog in the Milky Way" ("Vira lata na Via Láctea" em português), o livro será lançado pela Editora Alameda e adota uma abordagem temática diferente da anterior.
Christopher Dunn, que conheceu Tom Zé em 1992 enquanto realizava pesquisa de doutorado sobre o Tropicalismo, utilizará a canção "Jimmy renda-se" como ponto de partida para analisar diversos aspectos da obra do compositor. A música, lançada em 1970, exemplifica a experimentação poética de Tom Zé com sua língua inglesa macarrônica criativa, combinando elementos de rock e rhythm'n'blues que posteriormente chamaram atenção do mercado internacional.
A importância cultural de "Estudando o samba"
Um dos destaques da biografia será o álbum "Estudando o samba", que completou 50 anos em 2026. Lançado em 1976, este disco representou um investimento radical de inventividade, no qual Tom Zé se propôs a reexaminar um dos bastiões da cultura nacional brasileira. Apesar de seu insucesso inicial, que se prolongou por anos e quase o afastou da música, a obra se tornaria revolucionária.
A descoberta do disco por David Byrne, líder do Talking Heads, nos anos 1980, mudou completamente a trajetória de Tom Zé. Byrne ficou encantado pelo álbum e posteriormente lançou "Brazil Classics 4: The Best of Tom Zé" (1990), compilação que se tornaria um dos maiores sucessos da gravadora Luaka Bop, impulsionando a carreira do artista em âmbito global.
Reconhecimento tardio e ascensão internacional
O sucesso de "Brazil Classics 4" abriu portas para novos projetos. Tom Zé gravou "The hips of Tradition" (1992) e "Fabrication defect" (1998), consolidando sua posição como ícone global da música alternativa. Essa consagração internacional refletiu no Brasil, onde conquistou uma nova geração de ouvintes através da cena indie MPB e apresentações em festivais e casas de porte médio.
Suas canções também ganharam destaque em trilhas sonoras cinematográficas. "Jimmy renda-se" foi utilizada no filme "O agente da U.N.C.L.E." (2015) e mais recentemente em "Ainda estou aqui", do diretor Walter Salles, que conquistou o Oscar, ampliando ainda mais seu alcance e reconhecimento.
Rotina criativa e dedicação ao trabalho
Tom Zé atribui seu sucesso ao investimento devotado em seu trabalho. Sua rotina diária inclui acordar cedo, trabalhar até meio-dia, almoçar, descansar brevemente e retomar o trabalho até a noite, dormindo entre oito e nove horas. Essa disciplina, mantida ao lado de sua esposa Neusa há 56 anos, sustenta sua produtividade contínua.
Recentemente, o artista trabalhou em um novo disco encomendado pelo Sesc para comemorar os 80 anos da instituição. Com seu violonista e produtor Daniel Maia, Tom Zé compõe canções utilizando instrumentos inovadores que criou a partir dos anos 1970, como o hertzé, enceroscópio e buzinório, que ficaram esquecidos mas ressurgem em seus trabalhos atuais.
Vida pessoal e bem-estar
Após sofrer um traumatismo craniano causado por uma queda doméstica, Tom Zé recuperou-se bem, segundo informações de sua esposa. O artista pratica ginástica diária para evitar dores de cabeça e utiliza a medicina chinesa, incluindo massagens, tai chi chuan e macrobiótica, descobertas que fez quando se mudou para São Paulo em 1968.
Tom Zé afirma estar completo em suas necessidades pessoais: "Não tenho queixa de nada. Respeito, carinho, cuidado, atenção, isso tudo eu tenho." Sua energia vem principalmente do contato com jovens ouvintes, cujas mensagens e apoio alimentam sua motivação criativa.
Preparação para os 90 anos
Christopher Dunn e amigos próximos planejam uma grande celebração para o aniversário de 90 anos de Tom Zé em São Paulo, com show e convidados especiais como David Byrne, Pietro Scaramuzzo e compositores como José Miguel Wisnik e Luiz Tatit. O artista, porém, se mantém humilde sobre suas realizações, focando no presente e nos projetos vindouros.
