Projeto de lei busca proteger espaço de relevância cultural e política
A deputada estadual Renata Souza, do PSOL, apresentou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) um projeto de lei solicitando o tombamento da área conhecida como Buraco do Lume, localizada no bairro do Castelo, no Centro do Rio de Janeiro. A iniciativa surge em contexto de polêmica envolvendo a construção de um edifício residencial de 20 andares no local, gerando mobilização de setores progressistas da cidade.
De acordo com a justificativa do projeto apresentado pela deputada, o espaço — oficialmente denominado Praça Mário Lago — configura-se como um dos logradouros de maior relevância histórica, cultural e simbólica do Centro carioca. A proposta determina que o tombamento permitiria apenas a instalação de equipamentos destinados a atividades culturais, vedando qualquer outra destinação para o terreno.
Conexão com as origens da cidade
O Buraco do Lume representa um elo material fundamental com as origens coloniais do Rio de Janeiro e com a própria fundação do país. O terreno constitui um remanescente territorial do arrasamento do Morro do Castelo, considerado o berço da cidade. Este morro foi demolido no início da década de 1920, durante um período de transformações urbanas intensas na capital fluminense.
Incorporado ao patrimônio do Banco do Estado da Guanabara durante os anos 1960, o terreno foi posteriormente vendido ao grupo econômico Lume. A empresa planejava construir sua sede no local, mas a obra nunca avançou além das escavações iniciais. Este fato originou o grande buraco que posteriormente deu nome ao espaço, tornando-se um marco visual e simbólico na região central da cidade.
Importância como espaço democrático
Ao longo das décadas, o Buraco do Lume consolidou-se como espaço de relevância política e cultural na cidade do Rio de Janeiro. O local tornou-se palco de manifestações públicas e expressão da cidadania, características que, conforme destaca a justificativa do projeto de lei, reforçam significativamente a necessidade de sua preservação como símbolo vivo da vida democrática carioca.
Conflito com projeto imobiliário
Apesar da importância histórica e cultural do espaço, encontra-se em curso um projeto de construção de um edifício residencial de grande porte no terreno. A iniciativa é da construtora Patrimar e integra o programa Reviver Centro, iniciativa de revitalização urbana do Centro do Rio. O projeto prevê a edificação de 20 andares com 624 apartamentos, sem oferecimento de vagas de garagem, além de quatro lojas comerciais no pavimento térreo.
A comercialização das unidades imobiliárias, que variam entre estúdios e imóveis de até dois quartos, estava prevista para iniciar até junho. O terreno foi cercado na semana anterior à apresentação do projeto de tombamento, medida que provocou reações de setores da esquerda carioca e da sociedade civil interessada na preservação patrimonial da região central.
A apresentação do projeto de lei na Alerj marca um ponto de inflexão no debate sobre o futuro do Buraco do Lume, colocando em confronto duas visões: a preservação do patrimônio histórico-cultural e as pressões do desenvolvimento imobiliário urbano.
