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Marcelo Gleiser critica sonhos transumanistas de bilionários: ‘Seriam cômicos se não fossem trágicos’

Marcelo Gleiser critica transumanismo de bilionários, escravidão digital e colonialismo espacial. Debate futuro da ciência.
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Amanda Clark

O alerta de Marcelo Gleiser sobre o futuro da ciência

O renomado físico e best-seller brasileiro Marcelo Gleiser chega ao Brasil nesta semana para participar de apresentações na São Paulo Innovation Week, trazendo consigo uma preocupação crescente: o futuro da ciência imaginado pelas pessoas mais ricas e poderosas do mundo representa uma mistura perigosa de realidade delirante e visão distópica.

Em crítica contundente, Gleiser posiciona-se contra figuras como Peter Thiel, Jeff Bezos e Elon Musk, afirmando que seus sonhos transumanistas de imortalidade seriam cômicos se não fossem potencialmente trágicos. Para o cientista, é particularmente preocupante que esses empresários tenham capturado o imaginário científico que antes era domínio de cientistas e escritores como Carl Sagan e Isaac Asimov.

Transumanismo e a falsa promessa da imortalidade

Gleiser questiona profundamente a proposta transumanista de estender indefinidamente a vida humana através da inserção de tecnologias no corpo. Esse conceito inclui ideias como a transferência da mente para máquinas, o que supostamente tornaria os humanos imortais. Para o físico, essa abordagem possui um caráter quase vampírico, exemplificado pelo empresário Bryan Johnson, que recebe transfusões de sangue do filho em busca de um sangue mais jovem.

Uma questão fundamental levantada por Gleiser é: se colonizássemos Marte, quantas pessoas realmente poderiam ir? Cem? Mil? Um milhão? E o que aconteceria com os outros oito bilhões de habitantes da Terra? Essa contradição expõe o viés colonialista e religioso subjacente a essas propostas, onde os bilionários se autoproclamam novos deuses oferecendo um paraíso celestial.

O risco da escravidão digital e controle algorítmico

Durante sua apresentação em São Paulo, Gleiser pretende alertar sobre os perigos do que chama de escravidão digital. Esse conceito refere-se à forma como os algoritmos capturam nossa atenção, sugando-nos para um buraco negro de consumo infinito de conteúdo. Quanto mais você se aprofunda em um assunto específico, mais o algoritmo reforça esse mesmo conteúdo, causando isolamento intelectual e social progressivo.

Mais preocupante ainda é a tentativa de estender esse controle para o âmbito emocional. Os bilionários agora propõem que as pessoas possam se apaixonar por algoritmos, com máquinas substituindo terapeutas e companhias humanas. Para Gleiser, essa é uma ideia extremamente perigosa que desumaniza as relações e aprofunda a dependência tecnológica.

Impactos econômicos e sociais da inteligência artificial

O físico também enfatiza os perigos econômicos e sociais da dependência de inteligência artificial no mercado de trabalho. Essa dependência pode levar a desemprego em massa e desigualdade econômica, especialmente quando controlada por alguns poucos bilionários com interesses próprios, não alinhados com o bem-estar geral da humanidade.

Artemis versus colonialismo espacial

Embora crítico ao colonialismo espacial dos bilionários, Gleiser expressa entusiasmo genuíno pelo programa Artemis, que visa retornar humanos à Lua em 2028. Ele relata emoção ao presenciar astronautas orbitando a Lua e experimentando o fenômeno do pôr da Terra, uma experiência transformadora que apenas dezesseis pessoas tiveram até agora. Esse aspecto poético da exploração espacial—ver nosso planeta de forma diferente e compreender sua fragilidade—diferencia-se fundamentalmente das motivações comerciais dos bilionários, que buscam mineração espacial e turismo orbital.

A busca por vida em exoplanetas

Em pesquisa recente, Gleiser e seus coautores desenvolveram uma metodologia para identificar rapidamente planetas candidatos a abrigar vida. O método envolve análise das atmosferas de exoplanetas, comparando sua composição química com a terrestre. Com o Telescópio Espacial James Webb e o futuro Extremely Large Telescope no Chile, essa pesquisa será potencializada, permitindo investigar cerca de mil exoplanetas até 2030.

O dilema do cientismo moderno

Gleiser articula uma preocupação fundamental: a ciência está sendo transformada em verdade absoluta e em substituta para divindade. Essa crença, que denomina cientismo, presume que a tecnologia pode resolver qualquer problema humano. Um exemplo prático é a falsa esperança de que tecnologias de sequestro de carbono podem resolver o aquecimento global sem necessidade de políticas ambientais reais.

Essa mentalidade mística em torno da ciência enfraquece-a, em vez de fortalecê-la. Para Gleiser, é essencial reumanizar a ciência, reconhecendo seus limites enquanto celebram-se suas realizações genuínas, como a vacinação e a exploração lunar. A verdadeira defesa da ciência passa por honestidade intelectual sobre suas incertezas e impossibilidades, não por promessas vazias de imortalidade.

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