A estratégia americana contra o narcotráfico na América Latina
O governo do presidente americano Donald Trump adotou uma estratégia agressiva de classificar grupos criminosos ligados ao tráfico de drogas como organizações terroristas, afetando diversos países do continente. Essa política gerou reações variadas: desde a cooperação do México até confrontos diretos com líderes como Gustavo Petro, da Colômbia, e a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro. Essa mudança de abordagem levanta questões importantes sobre soberania nacional e a eficácia das operações antidrogas no continente.
México: cooperação estratégica sob pressão
O México, como país fronteiriço aos Estados Unidos, tornou-se um dos principais focos da política antidrogas americana. Em fevereiro de 2025, seis cartéis mexicanos foram designados como organizações terroristas. A presidente mexicana Cláudia Sheinbaum respondeu enfatizando que o país não aceitaria intervenções estrangeiras, mas adotou uma abordagem de colaboração bilateral em questões de segurança.
A estratégia mexicana incluiu operações militares significativas, como a morte do narcotraficante Nemesio Oseguera, conhecido como El Mencho, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación em fevereiro. Os Estados Unidos apoiaram essa operação através do compartilhamento de informações e inteligência. Segundo o cientista político Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, essa abordagem cooperativa fez com que Trump aliviasse a pressão sobre a nação mexicana.
Contudo, a cooperação não foi isenta de tensões. Em abril, após a morte de dois cidadãos americanos em um acidente de carro, surgiram suspeitas de que ambos trabalhavam para a CIA. O caso evidenciou falhas na comunicação entre os governos e gerou estresse político no México, conforme ressaltou o especialista em Segurança Pública Roberto Uchôa.
Além das operações militares, a designação dos cartéis como terroristas teve desdobramentos financeiros significativos. Em junho de 2025, três bancos mexicanos foram alvo de sanções do Departamento do Tesouro dos EUA sob alegação de lavagem de dinheiro do tráfico de fentanil, com o CIBanco entrando em processo de liquidação.
Colômbia: confronto e consequências econômicas
A Colômbia enfrentou uma situação mais delicada. Em dezembro de 2025, o Clan del Golfo, grupo envolvido no tráfico de cocaína, recebeu a classificação de organização terrorista. Dois meses antes, o presidente Gustavo Petro, que mantém uma postura confrontacional com Trump, já havia sido sancionado sob alegações de envolvimento no tráfico de drogas.
As consequências foram imediatas e severas. Os americanos interromperam a ajuda financeira ao país, retirando o certificado de aliado na luta contra as drogas, que envolvia US$ 380 milhões anuais. A cooperação entre os dois países diminuiu significativamente. No entanto, as tensões arrefeceram em janeiro, quando Petro e Trump anunciaram ações conjuntas contra guerrilhas, sinalizando uma possível reaproximação.
Venezuela: intervenção americana direta
A Venezuela representou o caso mais extremo dessa política americana. A captura do ex-presidente Nicolás Maduro no início de 2025, levado aos Estados Unidos, marcou uma intervenção concreta. Uma das acusações contra Maduro estava ligada ao suposto Cartel de los Soles, classificado como organização terrorista.
Porém, em janeiro, o Departamento de Justiça recuou dessa afirmação, reconhecendo que o termo é na verdade uma gíria para corrupção nas forças armadas venezolanas. Outra organização classificada como terrorista, o Tren de Aragua, teve integrantes sancionados. Nos meses anteriores à captura de Maduro, autoridades americanas bombardearam barcos supostamente usados por narcotraficantes venezuelanos, o que levou o ex-presidente a denunciar a intervenção estrangeira.
Impacto no Brasil
No Brasil, a possibilidade de designar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas gerou preocupação no governo Lula, que vê na medida uma ameaça à soberania nacional. A classificação afeta não apenas operações de segurança, mas também o sistema financeiro, incluindo transações via Pix e operações bancárias.
Especialistas observam que a postura brasileira ao longo dos últimos meses se alinhou com a maioria dos países afetados pela política americana, exceto El Salvador e Equador, cujos governos mantêm estreito alinhamento com Trump. A questão central permanece: como equilibrar cooperação internacional em segurança com a preservação da soberania nacional.
