A atriz mineira Grace Passô realiza sua estreia como diretora de cinema com o longa-metragem "Nosso Segredo", que chega aos cinemas nesta quinta-feira. A produção é resultado de uma trajetória consolidada na dramaturgia e na atuação, trazendo reflexões sensíveis e poéticas sobre luto e saudade. O filme já passou por importantes eventos internacionais, como a Berlinale e o Festival de Cinema de Gramado, consolidando seu impacto no cenário cinematográfico.
Aos 46 anos, Grace Passô nasceu em Belo Horizonte como caçula de sete irmãos. Sua vida foi marcada por um acontecimento trágico que influenciaria profundamente sua obra: seu pai morreu subitamente, aos "40 e poucos anos", quando ela tinha apenas 5 dias de vida. "É um acontecimento muito marcante na minha família. Obrigou as pessoas a amadurecerem de diversas maneiras e, no processo criativo, as questões mais profundas vazam da gente", comenta a diretora sobre como esse luto moldou sua perspectiva criativa.
Uma obra sobre acaso e transformação
O roteiro de "Nosso Segredo" revisita uma das primeiras peças escritas por Grace há mais de 20 anos. Embora inspirado em experiências pessoais, a diretora esclarece que o filme não é uma autobiografia. "É sobre o acaso, os rompantes da vida. E, talvez, a mudança mais radical venha pela morte", afirma ela. Espectadores internacionais utilizaram a expressão "poesia da contenção" para descrever o trabalho, uma caracterização que a diretora encontra profundamente significativa.
Grace Passô iniciou seus estudos de teatro aos 13 anos, mas já era apaixonada por literatura desde a infância. Suas peças teatrais publicadas como livros foram traduzidas para seis idiomas, conquistando projeção tanto na dramaturgia quanto na atuação em longas como "Praça Paris" (2017) e "Temporada" (2018).
A narrativa familiar negra em foco
Em "Nosso Segredo", a diretora apresenta diferentes gerações de uma família negra, cujos graus de parentesco apenas gradualmente se esclarecem. A construção narrativa reflete a realidade de muitas casas latinas, onde diversos membros convivem com acordos afetivos profundos, independentemente dos laços biológicos exatos. "É como muitas casas latinas em que você entra e encontra um monte de gente, mas não sabe muito bem quem é tio e quem é mãe, embora o acordo afetivo seja profundo", descreve Grace.
Os detalhes visuais reforçam essa autenticidade: o chão de caquinhos vermelhos, o bambu com uma garrafa PET para colher abacates da árvore. Cada elemento contribui para a verossimilhança da narrativa.
Uma direção de fotografia envolvente
A direção de fotografia e câmera foi realizada por Wilssa Esser, com quem Grace Passô é casada há oito anos. Essa parceria profissional foi fundamental para materializar a visão criativa da diretora. "Queria que o espectador se perdesse dentro da casa. Então, imaginei uma câmera olhando pelas fendas das portas", explica Grace. A luz natural também desempenha papel crucial na obra, com o sol penetrando pelos cômodos e a luz lunar marcando os momentos noturnos.
Um elenco dedicado e inclusivo
O elenco reunido por Grace inclui a atriz Ju Colombo, que interpreta a matriarca da família. Colombo afirma que o filme traz narrativas importantes dentro do universo de famílias negras, sendo "tratado com muita humanidade" e trazendo "uma abordagem onírica da dor, que, quando não cuidada e falada, vira um monstro".
Um detalhe especial refere-se à escalação de Efraim Santos, um menino de 9 anos (com 6 durante as gravações) diagnosticado com autismo nível 1 de suporte. Grace se encantou pela sua personalidade durante os testes. A dedicação da equipe em torno de cuidados especializados resultou não apenas em uma performance memorável, mas também em desenvolvimento pessoal do ator: aprendeu a fazer contato visual, provar alimentos e ganhou maior autoconfiança.
Uma carreira multifacetada
Além de sua estreia na direção, Grace continua atuando em projetos relevantes. Pode ser vista na sexta temporada da série "Sessão de Terapia" ao lado de Selton Mello no Globoplay, além de uma participação no humorístico "Pablo e Luizão". Para o próximo ano, ela prepara a montagem de uma peça autoral, continuando sua trajetória na dramaturgia.
Refletindo sobre sua jornada, Grace comenta com emoção: "Minha família não tinha grana. Então, sonhávamos sem dinheiro. Fazer aula de teatro e buscar estudo em lugares diferentes veio de uma extrema coragem e de acreditar nesse sonho". Essa história de perseverança, aliada à profundidade emocional de sua obra, faz de "Nosso Segredo" uma experiência cinematográfica relevante nos cinemas.
