Estratégia de campanha causa tensão no PL baiano
O presidente estadual do PL na Bahia, João Roma, vive um momento delicado na política baiana. Acusado por correligionários de "esconder" Flávio Bolsonaro durante a campanha no estado, Roma foi surpreendentemente ignorado pelo presidenciável em sua lista oficial de indicações ao Senado, reforçando as tensões internas dentro da legenda.
Roma integra a chapa do candidato ao governo ACM Neto (União), que busca deliberadamente distanciar-se da imagem de Flávio Bolsonaro para evitar nacionalizar o debate eleitoral em um estado majoritariamente lulista. Até a quarta-feira 9 de setembro de 2026, o site oficial da campanha de Flávio apresentava apenas Ângelo Coronel (Republicanos) como postulante ao Senado com apoio direto do presidenciável na Bahia.
Transformação de imagem política
A mudança estratégica de Roma é notória e bem documentada. Em 2022, quando disputou o governo estadual, o agora candidato ao Senado se apresentava como o "único candidato de Bolsonaro na Bahia" e explorava sua condição de criador do Auxílio Brasil. Seu material de campanha era repleto de verde e amarelo, cores características do bolsonarismo, e suas redes sociais mostravam frequentes imagens ao lado de nomes da alta cúpula do movimento.
Quatro anos depois, a estratégia é completamente diferente. Roma abandonou o verde e amarelo em favor do azul — cor da campanha de ACM Neto. Sua primeira peça de campanha televisiva não menciona a família do ex-presidente Bolsonaro em nenhum momento, limitando-se a destacar sua experiência em Brasília e realizações no ministério da Cidadania, sem especificar quem ocupava o Planalto na época.
Conflitos internos na legenda
A postura de Roma desagrada significativamente candidatos a deputados estaduais e federais do PL na Bahia. Esses membros da sigla reclamam de falta de investimento na campanha de Flávio e receiam que a presença reduzida do presidenciável no estado diminua o número de cadeiras conquistadas pelo partido nas eleições.
Um dos críticos mais vocais é o candidato à Câmara Giu Argôlo, que afirma não ter recebido material de campanha de Flávio e relata ter sido impedido de citar Bolsonaro em sua gravação televisiva, que durou apenas 6 segundos. Argôlo também denunciou receber menos de 20% da verba prometida para sua campanha, alegando que membros muito ligados ao bolsonarismo estão sendo "escanteados e boicotados" na distribuição de recursos.
Há, ainda, preocupações de que uma eventual vitória de ACM Neto conduza o PL para um campo mais moderado no estado, o que desagrada membros do partido que veem maior potencial eleitoral na radicalização política.
A defesa de Roma e a questão eleitoral
Procurado, Roma respondeu às críticas afirmando que o diretório local do PL investe sim na campanha de Flávio. Segundo o candidato, o material preparado pelo PL nacional ainda não havia chegado, então ele utilizou a estrutura local para auxiliar o presidenciável. Sobre a diferença abismal entre sua campanha de 2022 e 2026, Roma argumenta que se trata de naturezas distintas de candidaturas — governador versus Senado — e que precisa obedecer à linguagem visual de ACM Neto por integrar sua chapa.
Apesar das explicações, Roma reconhece que continua pedindo votos a Flávio em agendas junto com ACM Neto, mesmo que o carlista apoie outro candidato presidencial.
O cenário eleitoral desafiador
A pesquisa Quaest mais recente revela um quadro preocupante para Roma. Embora ACM Neto esteja empatado na liderança com o governador Jerônimo Rodrigues (PT), os candidatos ao Senado da coligação carlista aparecem significativamente atrás dos petistas. O ex-governador Rui Costa (PT) e o senador Jaques Wagner (PT) marcam 23% e 17% das intenções de voto, respectivamente, enquanto Roma aparece com apenas 7%, empatado tecnicamente com Angelo Coronel, que alcança 5%.
Este cenário ilustra os desafios enfrentados não apenas por Roma, mas pela estratégia geral de distanciamento do bolsonarismo adotada pela chapa de ACM Neto em uma Bahia que se mostra refratária à agenda de direita.
