Uma estratégia política adaptada às limitações pessoais
Michelle Bolsonaro tem reinventado sua atuação política nos últimos dois meses, adaptando-se às novas circunstâncias impostas pela prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. Enquanto seu marido cumpre condenação por tentativa de golpe em regime de prisão domiciliar, a ex-primeira-dama tem conduzido suas atividades políticas remotamente, participando de reuniões e eventos através de videochamadas, transmissões ao vivo e articulação digital com lideranças femininas em todo o país.
Durante um encontro do PL Mulher em Palmas, no Tocantins, Michelle apareceu em um telão, afirmando: "Nós não queremos competir com os homens. Nós queremos caminhar ao lado". A imagem transmitida do seu domicílio em Brasília representou uma cena que se tornaria cada vez mais frequente em sua rotina política, evidenciando sua determinação em manter influência no partido apesar das restrições impostas.
Responsabilidade e limitações: o cuidado com o ex-presidente
Responsável pelos cuidados do ex-presidente durante sua recuperação de saúde, Michelle precisou reorganizar completamente sua agenda de atuação política. Segundo relatos de interlocutores, ela tem evitado se ausentar de casa por longos períodos, temendo que qualquer intercorrência com Bolsonaro durante suas ausências possa gerar desgaste político ou questionamentos sobre o cumprimento das condições impostas pelo Supremo Tribunal Federal.
Um episódio ilustrativo dessa nova realidade ocorreu duas semanas antes do encontro em Palmas, quando Michelle participou de uma conversa com prefeitas e lideranças femininas reunidas em Brasília via videochamada, enquanto preparava o almoço do ex-presidente em sua cozinha. Essa cena simbólica reflete como a ex-primeira-dama tem conciliado responsabilidades domésticas com atividades políticas relevantes.
O projeto do PL Mulher: objetivos ambiciosos e atuação descentralizada
Apesar das limitações de mobilidade, Michelle nunca esteve tão ativa politicamente dentro do partido, segundo aliados. Seu objetivo principal é eleger pelo menos 20 parlamentares mulheres nas próximas eleições. O foco da ex-primeira-dama está concentrado menos na disputa presidencial e mais na tentativa de aumentar a influência do PL Mulher na definição das candidaturas proporcionais em diferentes estados.
Em Goiás, Michelle apoia a ex-prefeita Maria Yvelônia para deputada federal. No Maranhão, entrou em campo pelas candidaturas de Mariana Carvalho e Flávia Berthier. Em Mato Grosso, trabalha pela reeleição da deputada Coronel Fernanda. No Paraná, apoia a vereadora Carlise Kwiatkowski para a Câmara Federal. No Amazonas, trabalhou diretamente pela consolidação da pré-candidatura da professora Maria do Carmo, inclusive convencendo Flávio Bolsonaro a embarcar no projeto após resistências internas.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, atribui à ex-primeira-dama o fortalecimento da ala feminina da legenda, afirmando: "Somente o PL hoje valoriza e investe em candidaturas femininas. Graças ao belo trabalho da primeira-dama Michelle Bolsonaro".
A disputa silenciosa com Flávio: conflitos estratégicos e divergências políticas
A movimentação de Michelle na montagem de candidaturas femininas produziu reflexos nas disputas majoritárias estaduais, abrindo uma disputa silenciosa entre ela e o entorno de Flávio sobre quem deve representar o grupo político de Jair Bolsonaro. O Ceará tornou-se o principal símbolo desse conflito: enquanto aliados de Flávio trabalham por uma aproximação com Ciro Gomes e defendem o deputado estadual Alcides Fernandes para o Senado, Michelle atua publicamente contra qualquer composição com o PSDB e transformou a defesa da vereadora Priscila Costa em prioridade pessoal, mantendo apoio ao senador Eduardo Girão para o governo estadual.
No Distrito Federal, Michelle se alinhou à vice-governadora Celina Leão e trabalha para fortalecer Bia Kicis ao Senado, enquanto aliados de Flávio insistem na candidatura do senador Izalci Lucas ao governo. Em Santa Catarina, conseguiu consolidar Carol de Toni como prioridade para o Senado. Em São Paulo, Michelle defendia Rosana Valle para o Senado, enquanto Flávio decidiu apoiar André do Prado na disputa pela vaga senatorial.
Distanciamento crescente entre madrasta e enteado
Ao mesmo tempo que monta sua bancada feminina, Michelle aprofunda a distância em relação à pré-campanha presidencial de Flávio. Aliados afirmam que ela já avisou Jair Bolsonaro que não pretende assumir papel ativo na campanha do enteado. O distanciamento aumentou após disputas no Ceará do ano anterior, quando Michelle defendeu publicamente a candidatura de Girão ao governo.
Segundo pessoas próximas à família, Michelle esperava um gesto mais claro de contenção dos ataques internos e um pedido de desculpas de Carlos Bolsonaro, que nunca aconteceu. A relação nunca voltou ao estágio anterior, e Flávio sequer cumprimenta a madrasta durante visitas ao pai. Quando questionada recentemente sobre o envolvimento de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, Michelle desconversou, respondendo: "Você precisa perguntar para ele".
