Mercado Revisa Estimativas da Taxa Selic em Meio a Pressões Internas e Externas
O prolongamento do conflito entre Estados Unidos e Irã, que já ultrapassa três meses de duração, combinado com indicadores robustos da economia brasileira, tem impulsionado instituições financeiras de grande porte a revisarem suas estimativas para a Taxa Selic. O mercado financeiro, que inicialmente esperava uma resolução mais rápida do impasse geopolítico, agora se vê diante de um cenário mais complexo que exige ajustes nas projeções de taxas de juros e inflação.
Os contratos de juros negociados no mercado nesta quarta-feira refletem essa divisão de opiniões entre analistas. As projeções indicam que a taxa básica pode sofrer uma leve redução para 14,25% ou manter-se em 14,5%. Simultaneamente, as taxas de Depósito Interfinanceiro (DI) para o período entre janeiro de 2028 e janeiro de 2031 operam nos patamares máximos de 2026, sinalizando preocupações com a trajetória inflacionária de médio prazo.
Deterioração do Cenário Econômico Segundo Especialistas
Thiago Berriel, ex-diretor do Banco Central, e sua equipe de analistas no BTG Pactual afirmam em relatório que o cenário se deteriorou de forma significativa desde a última reunião do Comitê de Política Econômica (Copom). A instituição agora projeta apenas um corte de juros até o final do ano, esperado para a próxima reunião do comitê, marcada para daqui a duas semanas. Segundo essa avaliação, a Selic deve reduzir para 14,25% e permanecer nesse patamar durante 2025.
Três fatores principais justificam essa revisão: dados de inflação acima do esperado com composição desfavorável, indicadores persistentes de atividade econômica forte, mercado de trabalho aquecido e expansão do crédito, além da deterioração das expectativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2028.
Inflação em 2028: Estimativas em Alta
O Boletim Focus mais recente indica que a estimativa mediana do mercado para o IPCA em 2028 atingiu 3,66%, superior aos 3,5% projetados antes da eclosão do conflito no Oriente Médio. Esse aumento nas expectativas inflacionárias reforça a necessidade de manutenção de juros mais elevados por períodos mais prolongados.
Surpreendentemente, a economia brasileira continua demonstrando resiliência. A produção industrial divulgada recentemente cresceu 0,7% em abril, superando as estimativas de mercado que apontavam para 0,5%. Esse desempenho sólido reforça a narrativa de uma economia que não responde da forma esperada aos estímulos restritivos da política monetária.
Perspectiva Global e Impactos nos Juros Mundiais
Caio Megale, economista-chefe da XP, compartilha análise semelhante à de Berriel. Em seu relatório, Megale aponta que a extensão do choque de petróleo contribui para juros mais elevados em todo o mundo, complicando a condução da política monetária pelos bancos centrais globais. O Federal Reserve (Banco Central dos EUA) deve manter sua taxa estável nos próximos trimestres, enquanto o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra podem promover elevações.
A XP revisou sua estimativa para a Taxa Selic terminal do ano para 14%, em comparação aos 13,75% projetados anteriormente. O Itaú BBA também ajustou suas projeções, movimentando a taxa esperada ao fim do ano de 13,25% para 13,75%, representando uma redução de 0,75 ponto percentual até dezembro. Segundo Mário Mesquita, economista-chefe do banco, o ciclo de flexibilização está mais restrito, e a intenção da autoridade monetária é encerrar com uma taxa que permaneça em terreno contracionista.
Estímulos Fiscais Como Fator de Pressão Adicional
Além das pressões externas relacionadas ao conflito geopolítico, fatores domésticos também contribuem para a revisão das projeções. O BTG Pactual aponta que o balanço de riscos para a inflação permanece assimétrico, com possibilidades de superar as projeções. Entre os fatores que ampliam esse risco estão a persistência do choque de petróleo, a possibilidade de um El Niño mais intenso e discussões sobre o possível fim da escala 6x1 de trabalho.
Choques climáticos tendem a impactar alimentos e preços agrícolas, enquanto uma possível reformulação das jornadas de trabalho pode aumentar custos laborais diante de maior demanda por mão de obra. A equipe liderada pela economista Solange Srour, do UBS GWM, destaca que gastos governamentais continuam pressionando o índice inflacionário. A economia brasileira segue sendo beneficiada por estímulos fiscais, creditícios e parafiscais extensos que reduzem a efetividade da política monetária.
Segundo projeções do UBS GWM, programas governamentais devem injetar aproximadamente R$ 189 bilhões na economia até o final do ano, ampliando um impulso que persiste há anos. Conforme destacado em seu relatório: quando diferentes instrumentos do setor público funcionam sistematicamente na direção oposta à da taxa de juros, resulta em redução da sensibilidade da economia à Selic, tornando a política monetária menos restritiva do que aparenta e exigindo juros mais elevados ou mantidos por maior tempo para produzir o mesmo efeito desinflacionário.
