Tensões crescentes entre EUA e aliados da Otan
Um e-mail interno do Pentágono revelou planos potenciais para punir aliados da Otan que, na avaliação de Washington, não apoiaram adequadamente as operações americanas contra o Irã. De acordo com informações divulgadas pela Reuters, entre as possibilidades analisadas estaria a suspensão da Espanha da aliança militar do Ocidente e a revisão do apoio diplomático dos Estados Unidos a antigas possessões territoriais europeias. No entanto, autoridades da Otan negaram posteriormente qualquer plano para suspender ou expulsar membros da organização.
A frustração americana concentra-se na recusa de alguns aliados em conceder aos Estados Unidos acesso, bases e direitos de sobrevoo — conhecidos como ABO — para operações contra a República Islâmica. Segundo a fonte que divulgou o documento, o e-mail descrevia essas permissões como o "mínimo absoluto para a Otan" e sugeria que opções punitivas estavam sendo avaliadas internamente pelo Pentágono.
Espanha no centro da controvérsia
A Espanha tornou-se o foco principal dessa disputa, em parte porque é o único país da Otan que não se comprometeu a gastar 5% do seu PIB em defesa. O governo espanhol impediu que aviões americanos envolvidos nas operações contra o Irã utilizassem seu espaço aéreo, gerando tensão com a administração Trump. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, classificou a guerra como "imprudente e ilegal", argumentando que é "inaceitável" que políticos usem "a fumaça da guerra para esconder seus erros".
Como líder socialista de relevância na União Europeia, Sánchez tornou-se símbolo do que Trump considera um tipo de esquerdismo europeu inadequado em questões de defesa, China e migração. O presidente americano chegou a ameaçar impor embargos comerciais contra Madri e criticou duramente outros aliados europeus, incluindo o premiê britânico Keir Starmer, chamando-o de "covarde".
Resposta espanhola e posicionamento europeu
Ao ser questionado sobre o e-mail do Pentágono, Sánchez respondeu de forma estratégica, afirmando que o governo "trabalha com base em documentos oficiais" e não em comunicações internas. Enfatizou que a Espanha é um "parceiro leal" da Otan e demonstrou confiança na solidez de sua posição dentro da aliança.
Autoridades da Otan foram rápidas em negar a viabilidade legal de qualquer suspensão. Um membro oficial declarou que "o Tratado Fundador da Otan não prevê qualquer dispositivo para suspensão da adesão à aliança". A Alemanha também se posicionou, com porta-voz do governo afirmando que a adesão espanhola não estava em questão e não havia "razão para que isso mude".
Questão das Ilhas Malvinas
O memorando do Pentágono também mencionava a possibilidade de revisão do apoio diplomático americano a antigas "possessões imperiais" europeias, incluindo as Ilhas Malvinas, conhecidas como Falklands no Reino Unido. Essa sugestão ganhou relevância considerando que o presidente argentino, Javier Milei, é visto como aliado de Trump, enquanto o Reino Unido tem mantido posição firme sobre a soberania do território.
Um porta-voz do governo britânico enfatizou que "a soberania pertence ao Reino Unido e o direito à autodeterminação dos habitantes das ilhas é fundamental", deixando claro que essa posição tem sido comunicada de forma "clara e consistente" às sucessivas administrações americanas.
Resposta oficial do Pentágono
A secretária de imprensa do Pentágono, Kingsley Wilson, confirmou que o presidente Trump considera os aliados da Otan como "tigres de papel" que não estiveram ao lado dos EUA quando necessário. Ela afirmou que o Departamento de Defesa garantiria ao presidente opções para "assegurar que nossos aliados deixem de ser um tigre de papel e passem a fazer sua parte", sem oferecer detalhes sobre deliberações internas.
Futuro incerto da aliança transatlântica
Essas tensões refletem preocupações mais amplas sobre o futuro da Otan após 76 anos. Analistas e diplomatas alertam que as ações de Trump levantam questões sérias sobre se Washington socorreria aliados europeus em caso de ataque. Reino Unido, França e outros países argumentam que aderir ao bloqueio naval americano equivaleria a entrar na guerra, embora se declarem dispostos a ajudar quando houver cessar-fogo duradouro.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, resumiu a posição americana afirmando: "Recebemos questionamentos, obstáculos ou hesitações… Não há muita aliança se há países que não estão dispostos a ficar ao seu lado quando você precisa deles". Esse posicionamento marca um ponto de inflexão nas relações transatlânticas, com consequências potencialmente significativas para a coesão da aliança.
