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Suprema Corte questiona constitucionalidade de decreto Trump sobre cidadania por nascimento nos EUA

Suprema Corte analisa constitucionalidade do decreto Trump sobre cidadania por nascimento. Juízes demonstram ceticismo sobre a medida que afetaria milhões.
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Amanda Clark

A Suprema Corte dos Estados Unidos iniciou a análise de uma das questões mais polêmicas do governo Trump: a constitucionalidade de um decreto que visa restringir a cidadania automática por nascimento. Durante a audiência realizada nesta quarta-feira, o presidente americano participou pessoalmente dos debates por mais de uma hora, tornando-se o primeiro mandatário em exercício a comparecer a uma sessão oral do tribunal em décadas.

O Decreto e Suas Implicações

No primeiro dia de seu retorno à Casa Branca em janeiro de 2025, Trump assinou uma ordem executiva polêmica que busca negar cidadania americana a filhos de imigrantes em situação irregular ou com visto temporário nascidos nos EUA. A medida foi imediatamente contestada judicialmente e anulada temporariamente por tribunais inferiores, mas o governo recorreu, argumentando que os juízes haviam excedido seus poderes constitucionais.

Agora cabe à Suprema Corte determinar se a ordem é constitucional, considerando especificamente a 14ª Emenda da Constituição, que estabelece: "todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos EUA, e sujeitas à sua jurisdição, são cidadãs do Estado em que residem".

Ceticismo Entre os Magistrados

Durante os argumentos orais, diversos juízes demonstraram preocupação com a posição do governo. Notavelmente, até magistrados nomeados por Trump, como Neil Gorsuch e Amy Barrett, além do presidente da Corte John Roberts, levantaram questões críticas sobre o decreto.

A juíza Barrett afirmou que a interpretação governamental da 14ª Emenda introduz "um novo tipo de cidadania", desviando-se fundamentalmente do precedente estabelecido há mais de um século. Roberts, por sua vez, questionou o argumento do procurador-geral John Sauer sobre o "turismo de parto", observando que os redatores da 14ª Emenda não poderiam ter previsto essa prática específica no século XIX.

O Precedente Histórico de Wong Kim Ark

A base legal para a cidadania por nascimento foi estabelecida em 1898, no histórico caso Wong Kim Ark. Wong nasceu em São Francisco em 1873, filho de imigrantes chineses, e sua entrada no país foi negada em 1895, após uma viagem à China, com base na Lei de Exclusão Chinesa. Ao recorrer à 14ª Emenda, a Suprema Corte então reconheceu seu direito à cidadania americana.

Essa decisão reafirmou que a emenda, aprovada após a Guerra Civil para garantir direitos aos escravizados libertos, aplicava-se amplamente a todos os nascidos em território americano. Por mais de 125 anos, essa interpretação permaneceu praticamente incontestada.

O Significado de "Sujeito à Jurisdição"

A expressão "sujeitas à sua jurisdição" será central no julgamento. O governo Trump argumenta que filhos de imigrantes indocumentados não estariam sujeitos à jurisdição dos EUA, pois seus pais não teriam lealdade ao país. Aliados do presidente sustentam que essas crianças deveriam ser tratadas como filhos de diplomatas estrangeiros — nascidas em solo americano, mas vinculadas juridicamente a outro Estado.

Porém, a visão oposta, defendida pela União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) e por diversos advogados, sustenta que a cidadania por nascimento é um princípio consolidado, independente da condição dos pais. A Lei de Imigração e Nacionalidade de 1952 utiliza a mesma formulação constitucional para definir cidadania.

Consequências Potenciais

Uma decisão favorável ao governo Trump poderia redefinir fundamentalmente o conceito de cidadania americana. Segundo análises, o decreto poderia afetar mais de 200 mil bebês nascidos anualmente de pais imigrantes indocumentados. Um estudo da Universidade Duke prevê que, se implementado até 2050, aproximadamente 6,4 milhões de crianças nascidas nos EUA ficariam sem status regular.

A Suprema Corte deve proferir sua decisão até o final de junho ou início de julho de 2025. A ACLU, que apresentou a ação judicial, expressou confiança após a audiência, com sua advogada Cecilia Wang afirmando que os juízes demonstraram preocupação legítima com a medida. O resultado desta decisão histórica terá implicações profundas não apenas para milhões de crianças nascidas nos EUA, mas para a própria definição de cidadania americana no século XXI.

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