Você está em:

Tehrangeles: Como a comunidade iraniana em Los Angeles usa a Copa do Mundo para protestar contra o regime

Tehrangeles mobiliza comunidade iraniana em Los Angeles para protestar contra regime na Copa do Mundo, desafiando restrições da Fifa.
Picture of Amanda Clark

Amanda Clark

A mobilização de iranianos nos EUA durante a Copa do Mundo

Tehrangeles, o apelido carinhoso dado à região de Westwood em Los Angeles, abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã, com aproximadamente 500 mil pessoas. Neste momento histórico, essa comunidade se mobiliza de forma sem precedentes para usar a Copa do Mundo como plataforma de protesto contra o regime teocrático iraniano. O eletricista Orang, que deixou o Irã há mais de vinte anos em busca de uma vida livre, lidera esforços ao lado de seus conterrâneos para transformar o torneio esportivo em um veículo de mudança política.

A estratégia de protesto nas arquibancadas

Na véspera da estreia iraniana contra a Nova Zelândia no SoFi Stadium, ativistas se reuniram em Westwood para distribuir camisas e bandeiras iranianas modificadas a torcedores. A estratégia é ousada e carrega riscos significativos: utilizam a versão antiga da bandeira iraniana, anterior à Revolução Islâmica de 1979, que exibe o leão e o sol no centro. Este símbolo está explicitamente vetado pela Fifa, que tenta manter o torneio livre de manifestações políticas.

Apesar das restrições e dos riscos envolvidos, os ativistas prometem levar o símbolo às arquibancadas. Sherry, uma comerciante que vive nos EUA desde 1995, afirma estar determinada a balançar a bandeira verdadeira atrás do gol, mesmo que isso signifique desafiar as autoridades do torneio. Para ela e para muitos como ela, o futebol deixa de ser apenas esporte e se torna um instrumento legítimo de resistência.

O contexto geopolítico que permeia o torneio

Dissociar a participação iraniana neste Mundial do contexto geopolítico atual é tarefa impossível. Em fevereiro, ataques aéreos coordenados entre Estados Unidos e Israel contra Teerã desencadearam uma crise que ameaçou a participação iraniana no torneio. A federação iraniana chegou a ameaçar abandonar sua vaga e cobrou intervenção direta da Fifa para resolver problemas com vistos para entrada no território americano.

A resposta foi um arranjo extraordinário: a delegação iraniana foi obrigada a se concentrar em Tijuana, no México, e atravessar a fronteira apenas na véspera das partidas. O avião com a delegação pousou em Los Angeles apenas um dia antes do jogo. Curiosamente, logo após a chegada, o presidente Donald Trump anunciou nas redes sociais um acordo entre EUA e Irã para interromper o conflito no Oriente Médio, abrindo caminho para negociações diplomáticas.

Tehrangeles: o coração cultural iraniano nos EUA

Westwood Boulevard é o epicentro desta pequena Teerã na Califórnia. À primeira vista, parece apenas mais uma das inúmeras largas avenidas de Los Angeles, mas rapidamente revela sua natureza única. Superfranquias americanas como 7-Eleven e Domino's dividem espaço com letreiros em persa, e a língua iraniana sobressai entre as múltiplas línguas que a diversidade californiana abriga.

A região reflete tanto a cultura persa preservada quanto a influência do novo mundo. As mulheres exibem cabelos soltos, usam calças jeans justas e batons vermelhos, contrastando com as restrições impostas no Irã. A proximidade do campus da University of California (UCLA) contribui para manter a média de idade baixa e a região dinamicamente multicultural.

Os restaurantes como guardiões da tradição

Se existe um lugar onde a cultura persa se preserva com maior eficiência, são os restaurantes de Westwood. Os cardápios dominados por diferentes tipos de kebab atraem turistas de todas as partes e moradores de diferentes vizinhanças de Los Angeles. Nestes estabelecimentos, ainda que questões políticas nem sempre sobressaiam, há uma indiferença notável pela seleção iraniana oficial. Como afirma Amir, garçom da região, a maior parte da comunidade iraniana não demonstra ligação emocional com o time.

A ameaça de retirada e o trauma coletivo

Ciente de que grupos tentarão usar a partida para protestar, o ministro do Esporte iraniano Ahmad Donyamali ameaçou retirar literalmente o time de campo caso observe símbolos hostis à República Islâmica nas arenas. Esta ameaça reflete a tensão extrema que envolve cada aspecto da participação iraniana.

Para historiadores como Arvin, a mobilização vai além do futebol. Ele lembra que o povo iraniano enfrenta trauma significativo em casa, e os iranianos que vivem nos EUA com liberdade de expressão têm a obrigação moral de usar suas vozes para manter viva a voz daqueles que não podem falar livremente. Este Mundial não será um jogo comum, e Tehrangeles está determinada a garantir que o mundo saiba disso.

Posts Relacionados

Hakimi enfrenta Brasil na Copa do Mundo enquanto aguarda decisão sobre acusação de estupro

Hakimi enfrenta Brasil na Copa do Mundo enquanto aguarda decisão sobre acusação de estupro

Hakimi enfrenta Brasil na Copa do Mundo enquanto aguarda decisão sobre acusação de estupro. Confira detalhes do processo judicial.

Belfast se mobiliza contra xenofobia: milhares protestam após distúrbios anti-imigração na Irlanda do Norte

Belfast se mobiliza contra xenofobia: milhares protestam após distúrbios anti-imigração na Irlanda do Norte

Belfast reúne milhares contra xenofobia em protesto após distúrbios anti-imigração. Comunidade condena ódio e discriminação na Irlanda do Norte.

Programa de Espionagem dos EUA Expira Durante Copa do Mundo 2026: Entenda o Impasse de Segurança

Programa de Espionagem dos EUA Expira Durante Copa do Mundo 2026: Entenda o Impasse de Segurança

Seção 702 da FISA expira durante Copa 2026. Entenda o impasse político e os riscos de segurança em meio ao maior evento esportivo global.

Ariana Grande exige retirada de música usada pelo ICE em vídeo sobre deportações

Ariana Grande exige retirada de música usada pelo ICE em vídeo sobre deportações

Ariana Grande exige retirada de música usada pelo ICE em vídeo. Cantora critica governo americano e ações contra imigrantes.

Confrontos entre manifestantes e polícia marcam abertura da Copa do Mundo 2026 no Estádio Azteca

Confrontos entre manifestantes e polícia marcam abertura da Copa do Mundo 2026 no Estádio Azteca

Manifestantes e polícia em confronto no Estádio Azteca durante abertura da Copa do Mundo 2026 no México, com protesto de familiares de desaparecidos.

Peru: Keiko Fujimori assume liderança apertada sobre Sánchez com 98,2% das urnas apuradas

Peru: Keiko Fujimori assume liderança apertada sobre Sánchez com 98,2% das urnas apuradas

Keiko Fujimori lidera eleição presidencial do Peru com 50,002% dos votos. Resultado depende de atas contestadas. Confira análise completa.

Ônibus da República Tcheca fica preso no México e causa caos no trânsito: jogadores vão a pé para treino

Ônibus da República Tcheca fica preso no México e causa caos no trânsito: jogadores vão a pé para treino

Ônibus da República Tcheca fica preso no México e causa caos no trânsito. Jogadores vão a pé para treino na Copa do Mundo 2026.

EUA intensificam ataques contra Irã no segundo dia de retaliação pela queda de helicóptero Apache

EUA intensificam ataques contra Irã no segundo dia de retaliação pela queda de helicóptero Apache

EUA lançam segundo dia de ataques contra Irã com 49 mísseis Tomahawk. Tensão máxima no Oriente Médio e risco de guerra total, alerta ONU.

pt_BRPortuguese