O escândalo do Banco Master chegou ao ponto que o Supremo Tribunal Federal vinha tentando evitar desde novembro de 2025: um ministro da Corte investigando material que aponta para outro ministro da Corte. Nesta terça-feira (1º), André Mendonça, relator do caso, derrubou o sigilo da Petição 16.662 e anunciou que levará ao plenário a decisão sobre incluir ou não Alexandre de Moraes na apuração. Um dia antes, os dois haviam se desentendido em uma conversa no gabinete de Mendonça. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, respondeu no mesmo dia pedindo a extinção do procedimento.
O que a PF encontrou no celular de Vorcaro
O material que provocou a crise é um relatório de 218 páginas entregue pela Polícia Federal ao STF em 27 de agosto, produzido a partir da extração de dados de um iPhone apreendido com Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero. A operação foi deflagrada em novembro de 2025 para apurar suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito do Master ao BRB, e terminou com a prisão do banqueiro quando ele tentava deixar o país em um jato particular, no aeroporto de Guarulhos.
Mendonça havia pedido à PF que identificasse os integrantes de uma suposta rede de influência e monitoramento montada por Vorcaro. Segundo o Poder360, o relatório reúne conversas com um contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA", além de registros de encontros e documentos ligados ao escritório Barci de Moraes Advogados, da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes. A PF descreveu ainda o método usado nas trocas: o texto era escrito no bloco de notas do celular, fotografado em captura de tela e enviado pelo WhatsApp no modo de visualização única — o que preservou as mensagens de Vorcaro, mas não as eventuais respostas.
Uma das mensagens é de 15 de novembro de 2025, dois dias antes da prisão. Nela, o banqueiro pergunta ao interlocutor: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". Em outro diálogo, ele menciona a necessidade de "proteção" em relação a Gonet e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Foi justamente a ordem para identificar o destinatário dessa conversa que a corporação apontou como sendo Moraes.
Há divergência entre os veículos sobre alguns números. O valor do contrato entre o Banco Master e o escritório da mulher do ministro aparece como R$ 108 milhões líquidos em 36 meses em parte da cobertura e como R$ 131 milhões em outra. A data da prisão de Vorcaro também oscila entre 17 e 18 de novembro de 2025, conforme a publicação.
A conversa que azedou no gabinete
O desentendimento entre os dois ministros foi revelado pela colunista Andreza Matais, do Metrópoles. Segundo a coluna, Moraes pediu uma conversa na segunda-feira (31) e foi recebido no gabinete de Mendonça. O tom subiu dos dois lados. Moraes teria acusado o colega de direcionar a investigação contra ele e sustentado que apurar um integrante do Supremo exige a concordância dos demais ministros. Mendonça, por sua vez, quis saber como Moraes tomara conhecimento de uma diligência sob sigilo. A resposta atribuída a ele pela coluna: "Eu tenho minhas fontes. Fui ministro da Justiça".
A gravidade do episódio varia conforme a fonte. O Metrópoles afirma que a discussão quase descambou para agressão física. O R7, reproduzido pelo Correio do Povo, registra que interlocutores dos dois gabinetes negam que a conversa tenha chegado a esse ponto, embora confirmem o confronto verbal. A Revista Oeste também descreve um encontro tenso, mas sem ofensas. Nem Moraes nem Mendonça se pronunciaram publicamente sobre o teor da conversa.
Em março deste ano, quando prints atribuídos a Vorcaro circularam a partir da CPMI do INSS, o gabinete de Moraes divulgou nota afirmando que uma análise técnica não confirmava que aquelas mensagens tivessem sido enviadas ao ministro.
O argumento de Mendonça
Na decisão desta terça, Mendonça escreveu que é inevitável levar os novos elementos ao colegiado e que o exame deve ocorrer de forma pública e transparente, em sessão presencial. Ele citou o dispositivo regimental que atribui ao plenário o julgamento de ministros do próprio Supremo em crimes comuns e afirmou que a Corte é a instância soberana para avaliar o material. O relator abriu prazo de cinco dias para a manifestação da PGR, mas deixou claro que encaminhará o caso ao plenário independentemente da posição de Gonet. A data da sessão caberá ao presidente do STF, Edson Fachin.
A decisão não abre investigação contra Moraes. Ela transfere aos onze ministros a escolha de fazê-lo ou não.
A resposta da PGR
Gonet foi na direção oposta. Na manifestação enviada ao Supremo, o procurador-geral sustenta que Mendonça extrapolou suas atribuições ao mandar a PF identificar integrantes da suposta rede de Vorcaro, ordem que acabou desaguando na apuração sobre um ministro da Corte. Segundo a Jovem Pan, quase 190 das 218 páginas do relatório tratam de Moraes. Para Gonet, o caminho correto seria ter procurado antes a presidência do tribunal, para que o plenário decidisse se havia motivo para investigar. Ele pediu o reconhecimento da nulidade da ordem e de seus resultados, e a extinção da petição.
O conflito, portanto, não é apenas de temperamento. Mendonça trata a publicidade e o envio ao plenário como cumprimento do dever de relator; a PGR trata a origem da diligência como vício insanável, capaz de contaminar tudo o que veio depois.
Como o Supremo se divide
O caso já mudou de relator uma vez. Dias Toffoli conduzia a apuração até fevereiro, quando um relatório da PF citou seu nome em uma ligação com Vorcaro; Fachin abriu arguição de suspeição, Toffoli deixou a relatoria e o processo foi redistribuído por sorteio a Mendonça.
Relatos sobre o ambiente interno da Corte, reproduzidos pela imprensa, apontam Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes como próximos de Moraes, enquanto Mendonça teria a simpatia de Fachin, Nunes Marques e Luiz Fux. Cármen Lúcia aparece como voto indefinido e Toffoli deve se declarar impedido em razão da atuação anterior. Essa contabilidade é de bastidor, não de posição pública: nenhum ministro anunciou como votará.
Repercussão e próximos passos
O Conselho Federal da OAB divulgou nota no mesmo dia defendendo apuração rigorosa e isenta de todos os fatos, com garantia do devido processo legal, da ampla defesa e da presunção de inocência. A entidade disse acompanhar o caso com preocupação.
O cronograma agora depende de dois movimentos. Primeiro, a manifestação formal da PGR dentro do prazo aberto por Mendonça. Depois, a marcação da sessão plenária por Fachin, que definirá se o Supremo autoriza ou não a abertura de investigação sobre um de seus integrantes. Não há data definida. Vorcaro, a defesa dele e o gabinete de Moraes não haviam se manifestado sobre o conteúdo do relatório até o fechamento das reportagens consultadas.
Fontes:
- Metrópoles — coluna Andreza Matais
- Poder360 — íntegras dos documentos da Petição 16.662
- Jovem Pan — manifestação da PGR
- ICL Notícias — decisão de levar o caso ao plenário
- Diário do Poder — detalhamento da decisão de Mendonça
- O Tempo — nota da OAB
- POA24horas / R7 — versões divergentes sobre a discussão
- Poder360 — nota do gabinete de Moraes em março de 2026
