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Padre Fábio de Melo: A Fama é uma Ilusão e a Espiritualidade vai Além da Religião

Padre Fábio de Melo revela que a fama é ilusão, fala sobre depressão e novo álbum inspirado no Nordeste em entrevista exclusiva.
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Amanda Clark

A Depressão como Origem de um Novo Álbum

O novo disco do Padre Fábio de Melo nasceu de um momento profundo de crise pessoal. Tudo começou com uma música de Dominguinhos, intitulada "Quem me levará sou eu", que se tornou um resgate espiritual para o sacerdote quando ele estava no fundo do poço. A canção conseguiu conectá-lo com a mensagem essencial que precisava ouvir: a solução para emergir não estava fora, mas dentro dele mesmo. Essa experiência transformadora acabou por nortear todo o álbum que ele lança, "O beijo que vós me nordestes", uma verdadeira ode ao Nordeste.

O trabalho traz composições de Chico César e Luiz Gonzaga, entre outros nomes consagrados, e conta com participações especiais de Gilberto Gil, Milton Nascimento, Mônica Salmaso, Maria Rita e Elba Ramalho. Como filósofo, escritor com dezenas de livros lançados e influencer com mais de 52 milhões de seguidores, o Padre Fábio consolidou uma carreira multifacetada que inclui 20 discos gravados e mais de cinco milhões de cópias vendidas.

A Busca pela Espiritualidade Além das Religiões

Em suas reflexões, Padre Fábio enfatiza que a espiritualidade transcende as instituições religiosas. Para ele, a arte foi a primeira religião que conheceu, mesmo antes de se tornar cristão. O cristianismo apenas fez sentido quando ele encontrou atributos aristotélicos que validavam uma realidade: beleza, verdade e justiça. Essa perspectiva transformadora começou quando teve a graça de rezar em uma igreja barroca, ficando encantado com seus volutas e altares, compreendendo isso como uma experiência religiosa autêntica.

A música sempre desempenhou papel central em sua compreensão do transcendental. Embora tenha sido criticado por cantar MPB enquanto padre, ele defende que religioso é tudo aquilo que religa. Segundo sua visão, não é sem motivo que a terapia tem como fonte de cura a palavra. Quando se fica diante de uma letra que tem o poder de alçar dentro de nós aquilo que não sabemos dizer, realiza-se uma verdadeira experiência religiosa.

A Fama como Roubo e Ilusão

Um dos pontos mais críticos da entrevista é quando Padre Fábio revela sua perspectiva sobre a fama. Para ele, "a fama é um roubo. Primeiro, porque ela é uma ilusão". Segundo suas palavras, a fama rouba você daquilo que mais ama fazer, retirando gradualmente a espontaneidade e privando os caminhos naturais. Há também o risco constante de se achar mais importante do que realmente se é.

O sacerdote admite ter caído nessa armadilha nos primeiros momentos de sua ascensão. Seus maiores arrependimentos surgiram quando identificou em si próprio a arrogância que reprova nos outros. Sua visibilidade foi rápida demais, provocando dispersão interior em alguém que sempre foi calmo e gostava de rotina. De repente, realizava 35 shows mensais pelo Brasil. Hoje, ele lida melhor com isso, entendendo que há uma medida necessária: o tanto que se é para o outro, precisa-se ser duas vezes para si em termos de busca e viagem interior.

Depressão, Predisposição Genética e Resgate Pessoal

Padre Fábio revela aspectos profundos de sua luta pessoal. Ele tem predisposição genética para depressão, com muitos suicídios documentados em sua família. Durante muito tempo, conviveu com isso, mas em 2017, "a casa ruiu". Viveu um combo difícil de administrar: depressão e síndrome do pânico, resultado direto da vida que estava vivendo. Pessoas que o amavam ficaram perto dele, mas ninguém conseguia socorrê-lo realmente. Ele queria solidão, e foi quando entendeu que os piores desertos são atravessados sozinho.

Essa crise profunda ocorreu logo após o suicídio de sua irmã. Dos sete irmãos, todos, com exceção de uma que morreu em acidente, tiveram episódios suicidas. Em 2017, Padre Fábio planejava o suicídio, especialmente em janeiro, quando teve uma crise muito severa. Porém, entendeu que, por mais que estimulada por alguém, a luta é interior. Precisava encontrar recursos para sobreviver a si mesmo, compreendendo que quem o adoecia não era o outro, mas a forma como se relacionava consigo.

Solidão, Redes Sociais e Inconsistência dos Vínculos

Sobre a epidemia de solidão no Brasil, Padre Fábio oferece uma análise profunda. A sociedade foi "cavando um poço do qual não consegue mais sair". Antes, havia dificuldade com pessoas da própria rua que davam palpites e julgavam. Ninguém suporta ser tão observado. As redes sociais quebraram as regras da boa educação que diziam não deveríamos parar na porta de alguém e gritar desaforos.

A solidão está ligada à inconsistência dos vínculos. As pessoas têm medo de aprofundar relacionamentos porque entendem que o excesso de observação alheia sobre suas vidas é doentio e retira as espontaneidades que deveriam ser naturais. Todos andam com medo do que pode ser dito e interpretado. Não se pode mais ter ninguém ao lado sem que criem uma narrativa sobre você.

Celibato, Sexualidade e Autenticidade Sacerdotal

Padre Fábio aborda a questão delicada do celibato e da sexualidade padres. Para ele, a vida sexual do padre existe, mesmo que não tenha expressão genital. A sexualidade envolve todos os afetos. A força da comunicação vem sempre de sedução, e todos os recursos humanos se manifestam na linguagem, chamando-se isso também de sexualidade.

Quanto ao celibato, ele lida com as mesmas dificuldades que qualquer pessoa precisaria para ser fiel ao que escolheu. Sua opção pela arte o ajuda a sublimar desejos. Porém, enfatiza que limitamos frequentemente os desejos aos carnais, quando os espirituais são maravilhosos. Escutar boa música, ler, ver uma série, apreciar arte cinematográfica - essas são suas satisfações maiores.

Religião, Bondade e o Futuro Religioso do Brasil

Padre Fábio defende que religião precisa fazer sentido para as pessoas. Em muitos momentos, a religião aprisiona a espiritualidade e tenta aprisionar também a bondade, atributo inerentemente humano. A bondade que se pode fazer já é um movimento de Deus, conforme sua crença, mas não se pode aprisionar esse atributo dentro de fronteiras religiosas.

Quanto ao avanço evangélico no Brasil, que estudos apontam ocupará espaço antes católico até 2049, Padre Fábio questiona qual é a qualidade do que as instituições religiosas estão oferecendo ao povo. Pergunta se as posturas pastorais fomentam uma religiosidade positiva, madura, que convide as pessoas a viverem o desconforto da autonomia, ou se prendem as pessoas à mediação religiosa. Para ele, a religião das perguntas indigestas supera a religião das respostas prontas.

Conceito Contemporâneo do Divino

Depois de tudo que passou, o conceito de divino para Padre Fábio se alargou significativamente. Humanamente falando, Deus é tudo aquilo que o conforta, porque é ali que o encontra. Mas também é tudo aquilo que o desinstala, que o conforta existencialmente mesmo desinstalado, porque a autonomia é um desconforto enorme.

Ele precisa de encantamento para viver: um bom livro, uma boa oração, um bom momento entre amigos. Ali, vê Deus agindo. Sente concretamente a presença divina em sua vida por meio de realidades humanas, tal como bem expressou a cantora Maria Bethânia ao dizer que precisa de algum delírio - para Padre Fábio, é encantamento.

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