Brasil na Encruzilhada das Emissões de Metano
A agricultura brasileira ocupa posição central no debate internacional sobre emissões de metano, um gás com potencial de aquecimento muito superior ao dióxido de carbono. Apesar dos fundamentos científicos e perspectivas econômicas já estarem mapeados, a implementação prática de soluções robustas para controlar e reduzir essas emissões no setor agrícola continua enfrentando obstáculos significativos que impactam diretamente os dados internacionais de sustentabilidade ambiental.
Durante o Fórum Freio para Emergência Climática, realizado na última quarta-feira no Píer Mauá durante a Rio Nature & Climate Week, especialistas discutiram caminhos e perspectivas para "produzir mais e emitir menos", buscando identificar os principais desafios na consecução dos objetivos de descarbonização do setor.
Brasil é o Quinto Maior Emissor Global de Metano
Como quinto maior emissor global de metano, atrás apenas de China, Estados Unidos, Índia e Rússia, o Brasil atingiu 21,1 milhões de toneladas de gás produzidas em 2023, marcando um aumento de 6% em um período de quatro anos. Esses dados foram publicados pelo Observatório do Clima em agosto do ano passado. Um estudo realizado pelo Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) indica que três quartos das emissões de poluentes — que são mais prejudiciais ao clima que o CO2 — originam-se da agricultura, particularmente da pecuária.
O segmento de gado representou isoladamente 14,5 milhões de toneladas, demonstrando a magnitude do desafio ambiental que o Brasil enfrenta no setor agropecuário.
Como o Gado Produz Metano
Na agricultura, o metano é produzido através do processo digestivo de animais ruminantes, como gado, cabras e ovelhas. No rúmen, um dos compartimentos do estômago desses animais, residem milhões de micro-organismos capazes de quebrar as ligações químicas do alimento ingerido. Através desse processo, além de CO2, esses organismos produzem gás metano, sendo que a maioria (95%) é emitida para a atmosfera através de eructação, popularmente conhecida como arroto.
Sustentabilidade Além da Ideologia
O jornalista Marcelo Lins, moderador da discussão sobre o tema, enfatizou a importância do debate sobre o papel da agricultura nas emissões globais de metano, particularmente no Brasil. Lins destacou que "sustentabilidade não é uma questão de campo progressista, nem é ideológica; é uma questão de sobrevivência da humanidade."
O jornalista também tocou em aspectos fundamentais da economia verde e dos investimentos sustentáveis, destacando a viabilidade econômica e a atratividade que essas alternativas oferecem. Conforme argumentou, o caminho do laissez-produire já se provou inviável, e práticas que geram lucro de curto prazo mostram-se economicamente insustentáveis a médio e longo prazo.
O Paradoxo dos Agrotóxicos
O uso excessivo de pesticidas em várias culturas, que inicialmente parecia reduzir custos de produção, na verdade os torna mais caros e economicamente inviáveis. Todos esses aspectos já estão consolidados nas análises de especialistas do setor.
Demanda de Mercado por Descarbonização
Eduardo Fronza, gerente sênior de projetos e especialista em clima da Proforest, explicou que "grandes empresas compradoras de commodities estabeleceram metas de descarbonização baseadas em ciência para reduzir emissões no escopo 3, as emissões indiretas concentradas na cadeia de suprimentos."
Nesse contexto, as empresas buscam fornecedores que possam ajudá-las a atingir esses objetivos e agora veem isso como uma oportunidade potencial para o setor. A prioridade para essas companhias não é mais comprar créditos de carbono, mas reduzir emissões em suas cadeias de suprimentos.
Principais Desafios de Implementação
Um dos maiores desafios para atingir esses objetivos é conseguir que os produtores adotem as tecnologias sustentáveis necessárias ao longo de todo o processo. Juan Andrés Cardoso, ecologista do Centro Internacional de Agricultura Tropical, localizado em Cali, destacou que um esforço significativo no Brasil e em muitos outros lugares é esse contato direto com produtores para que gerem conhecimento com as tecnologias disponíveis, as adotem e as utilizem de acordo com seus próprios ambientes.
O Poder dos Produtores Campeões
Uma maneira eficaz de colocar isso em prática é usar a influência dos "produtores campeões", que servem como referência para sua comunidade e vizinhos em suas regiões. Dessa forma, ocorre aprendizagem entre pares, em vez de aprendizado vindo da academia ou de uma parte altamente técnica.
Financiamento e Rastreabilidade como Obstáculos
Segundo Fronza, dois outros elementos centrais que complicam essa dinâmica são o financiamento para implementar práticas sustentáveis no Brasil e a rastreabilidade do gado, que ele identificou como questão-chave para levar essas propostas a pequenos e médios produtores.
Um desafio com dimensão prática, especialmente ao analisar a estrutura da cadeia de suprimentos de gado no Brasil, é a questão dos fornecedores indiretos. Às vezes, uma cabeça de gado passa por 3, 4, 5 fazendas antes de chegar a um grande produtor, tornando a rastreabilidade extremamente complexa.
Oportunidade para Pequenos e Médios Produtores
Por outro lado, esse caminho também é destacado como oportunidade potencial, considerando que a maioria da produção de gado brasileira é direcionada ao mercado doméstico. As demandas e compromissos sobre descarbonização de cadeias de suprimentos representam desafios, mas também uma oportunidade para pequenos e médios produtores atingirem um nível maior de produção e, consequentemente, mercados mais exigentes e qualificados.
O mercado está, de fato, disposto a pagar por esse resultado porque é uma meta comprometida, e os compradores buscam ativamente esse desempenho, criando um incentivo econômico tangível para a transição sustentável.
