Brasil na rota para a neutralidade de carbono em 2040
O Brasil possui potencial para alcançar a neutralidade de emissões até 2040 e emergir como liderança global no combate à emergência climática, de acordo com avaliação do renomado climatologista brasileiro Carlos Nobre. Durante a abertura da primeira edição da Rio Nature & Climate Week (RNCW), realizada de 2 a 6 de junho no Rio de Janeiro, Nobre, um dos cientistas climáticos mais respeitados do mundo, alertou sobre a aproximação de pontos de não retorno nos principais biomas brasileiros, mas argumentou que o país possui capacidade de combinar redução de emissões, conservação ambiental e desenvolvimento econômico.
"Nós cientistas climáticos não usamos mais o termo 'mudança climática'. Para nós, é uma emergência climática", afirmou o pesquisador. "A grande questão é: conseguimos evitar os pontos de não retorno nos biomas brasileiros? Acredito que sim".
Os biomas brasileiros sob risco iminente
Segundo Nobre, quatro dos seis biomas do país — Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga — já apresentam sinais de aproximação dos chamados pontos de não retorno, limiares além dos quais as mudanças ambientais poderiam se tornar irreversíveis. O caminho nesta direção está acelerando: os anos de 2023, 2024 e 2025 registraram, pela primeira vez, temperaturas médias globais próximas a 1,5° Celsius acima dos níveis pré-industriais, um limiar definido pelo Acordo de Paris como algo a ser evitado.
Oceanos mais quentes, aumento da umidade atmosférica e maior disponibilidade de energia no sistema climático contribuíram para a intensificação de eventos extremos em diferentes partes do mundo. Estudos recentes apresentados pelo cientista indicam que existe chance de o mundo atingir permanentemente o nível de aquecimento de 1,5° por volta de 2030, em vez de 2050 como se pensava há uma década.
Eventos extremos quebrando recordes globalmente
"Por isso todos os eventos extremos estão batendo recordes em todo o mundo: ondas de calor, chuvas extremas, secas, vendavais, ressacas e incêndios florestais. Há muito mais energia disponível no sistema climático", explicou Nobre. A comunidade científica monitora atualmente cerca de 25 pontos de não retorno globalmente, relacionados a processos atmosféricos, oceânicos, hidrológicos e ecológicos.
No Cerrado sozinho, 52% da cobertura original já foi desmatada, principalmente para expansão pecuária e, mais recentemente, monocultura de soja. O avanço da conversão da vegetação nativa levou ao aumento de temperaturas, redução da evapotranspiração e crescimento de incêndios florestais. A expansão de áreas com características similares ao semiárido sobre o Cerrado já é observável em diferentes regiões. Se o bioma ultrapassar seu ponto de não retorno, até 70% de sua área poderia adquirir características similares a regiões semiáridas.
Caatinga e Pantanal: vulnerabilidade extrema
Na Caatinga, aproximadamente 48% do bioma já foi desmatado, e 62% da área está em risco de desertificação. Pesquisas recentes identificaram características semidesérticas em regiões do norte da Bahia. "A Caatinga está muito próxima de um ponto de não retorno. O mesmo se aplica ao Pantanal, a maior área contínua alagada do planeta. Um ecossistema de enorme importância ecológica, com biodiversidade extraordinária", afirmou Nobre, ligando a vulnerabilidade do bioma a mudanças em regimes hídricos, construção de hidrelétricas e hidrovias, desmatamento e mudança climática.
Quanto à Amazônia, região que Nobre estuda há mais de quatro décadas, o pesquisador destacou que aproximadamente 18% da cobertura florestal original já foi perdida. Além do desmatamento, chamou atenção para o aumento de secas extremas, prolongamento da estação seca e crescimento da degradação florestal. A combinação de desmatamento e aquecimento global poderia levar a Floresta Amazônica a ultrapassar seu ponto de não retorno mais rapidamente, acelerando também a degradação do Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica.
Soluções e a bioeconomia sustentável
Apesar dos riscos, Nobre dedicou grande parte de sua apresentação a soluções que acredita poderem prevenir esse cenário. Entre elas está um estudo indicando a possibilidade do país atingir neutralidade de emissões até 2040. O objetivo exigiria zero desmatamento, eliminação da degradação florestal, restauração de áreas degradadas, expansão de energia renovável e adoção de modelos regenerativos de agricultura e pecuária.
A proposta prevê uma matriz energética baseada em fontes renováveis como solar, eólica, hidrogênio verde e biocombustíveis, junto com aumento do uso de veículos elétricos. No setor de uso da terra, o pesquisador defende a restauração de áreas degradadas em todos os biomas brasileiros para potencializar a remoção de carbono da atmosfera.
Outro eixo central da estratégia é o fortalecimento da sociobioeconomia. Segundo Nobre, embora o Brasil abrigue entre 18% e 20% da biodiversidade conhecida no mundo, produtos derivados desse patrimônio ainda têm participação limitada na economia nacional. O pesquisador defende a combinação de conhecimento científico, inovação tecnológica e conhecimento tradicional para aumentar a geração de renda ligada à conservação ambiental.
Como exemplo, citou sistemas agroflorestais, cadeias produtivas relacionadas a produtos da biodiversidade amazônica e iniciativas voltadas à industrialização local desses produtos. "Precisamos integrar conhecimento científico com conhecimento indígena e tradicional", afirmou, argumentando que enfrentar a emergência climática requer tanto redução acelerada de emissões quanto investimentos em adaptação, proteção de populações vulneráveis e educação climática.
