Uma Jornada que Começou na Infância
Quando Jorge Farjalla tinha pouco mais de 1 ano de idade, a trilha sonora de "Ópera do Malandro" já ecoava pelos cômodos da casa onde cresceu, em Goiás. Sua mãe, Didi, fascinada pela canção "Geni e o Zepelim", adquiriu o disco do filme dirigido por Ruy Guerra logo após o lançamento, transformando as composições de Chico Buarque em companhia constante do filho. Décadas depois, foi essa mesma mãe quem plantou a semente do projeto que hoje se concretiza nos palcos cariocas, com estreia marcada para 6 de agosto no Teatro Multiplan, no VillageMall.
A montagem traz um elenco estrelado liderado por José Loreto no papel de Max Overseas Navalha, com alternância de Tiago Barbosa no mesmo personagem. Uma escolha criativa que promete renovar a experiência a cada apresentação.
Do Desafio Inicial à Realidade
Farjalla, conhecido por espetáculos memoráveis como "Irma Vap" e "Clara Nunes — O Musical", revelou que nem sempre acreditou que musical era sua linguagem. Quando sua mãe o pediu em 2013 para montar "Ópera do Malandro", ele recusou a ideia. "Na época eu disse que musical não era a minha praia. A vida deu voltas, e hoje considero esse um dos projetos mais importantes da minha carreira", confessa o diretor.
Escrita por Chico Buarque em 1978, a obra original nasceu inspirada em "A Ópera dos Três Vinténs", de Bertolt Brecht, que adaptava "A Ópera do Mendigo", escrita por John Gay no século XVIII. Ao transportar essa linguagem para a Lapa dos anos 1940, Chico criou um retrato magistral da malandragem carioca, do poder e da corrupção, embalado por composições que ultrapassaram os palcos e se tornaram clássicos da música nacional.
Uma Abordagem Contemporânea
Farjalla decidiu revisitar esse universo sem transformá-lo em uma peça de época. A montagem mistura referências do teatro popular brasileiro, da umbanda e da cultura de rua para aproximar a história do público contemporâneo. "Eu não queria um espetáculo museológico. Queria que o público sentisse que aquelas pessoas continuam existindo", explica o diretor.
Depois de uma temporada bem-sucedida em São Paulo, com mais de 60 mil espectadores, Farjalla promoveu mudanças específicas para a chegada ao Rio. Alguns gestos, expressões e marcações foram adaptados para dialogar com um público que tem intimidade com o CEP dos cenários exibidos no palco. "Temos um grande e corrido trabalho de adaptação. Profissionais de luz, som e cenografia chegam uma semana antes do elenco", detalha.
A Escolha pela Alternância de Atores
A principal diferença do espetáculo carioca é a alternância entre José Loreto e Tiago Barbosa no papel de Max Overseas Navalha. Em vez de criar um Max "oficial", Farjalla estimulou os dois atores a encontrarem, cada um, a sua própria leitura do protagonista, sem reproduzir gestos ou marcações do colega. "Cada um tem a sua personalidade. Isso deixa o jogo cênico especial para todo o elenco. O teatro nasce e morre a cada dia", comenta o diretor.
Tiago Barbosa: O Retorno do Carioca
Natural do Rio de Janeiro, Tiago Barbosa retorna aos palcos fluminenses após três anos trabalhando fora do Brasil. Com participação em musicais da Broadway, carreira consolidada em Madri, onde vivia há três anos, e mudança prevista para a França, o ator carioca aceitou interromper temporariamente a jornada internacional.
O convite chegou de forma inesperada: durante uma chamada telefônica pouco antes de subir ao palco para outra apresentação, conversando com Farjalla e produtores por vídeo, alguém perguntou se o ator estava com um leve sotaque castelhano. Tiago respondeu de bate-pronto: "É pisar no Rio que o moleque do Vidigal volta!"
Nascido na Baixada Fluminense e criado entre as ruas de Duque de Caxias, São João de Meriti e Vidigal, Tiago construiu um Max marcado pela vivência nas ruas do Rio. "Minha essência é carioca. Minha família, meus amigos e minha comunidade estão no Rio", conta o ator, que desenvolveu um Max diferente de Loreto, refletindo suas personalidades distintas.
José Loreto: Uma Pós-Graduação em Artes Cênicas
José Loreto, conhecido pela novela "Quem Ama Cuida", considera "Ópera do Malandro" como o único musical que faria. "Estou vivendo uma pós-graduação em Artes Cênicas! O elenco é muito unido, e as interações são muito valiosas", revela.
O ator, que já cantava, tocava violão e compunha desde a adolescência, afirma que este trabalho representa um marco em sua carreira. "A 'Ópera' exige preparo físico, canto e dança... O processo de dar vida ao Max funcionou como um aprofundamento muito radical para a minha formação", compartilha.
Geni: Uma Personagem Redimensionada
Conhecida principalmente pela canção "Geni e o Zepelim", a personagem ganha novos contornos nesta montagem. Valéria Barcellos, primeira atriz trans a interpretar o papel em uma montagem de grande porte, descobriu que Chico Buarque havia se inspirado na figura de Madame Satã para criar a personagem.
Quando Farjalla anunciou a montagem, Valéria não esperou convite formal: "Mandei uma mensagem dizendo: 'Essa personagem tem que ser minha ou vou entrar no teatro e quebrar tudo'". Curiosamente, um dia antes disso, a mãe do diretor já havia sugerido exatamente o nome dela para esse papel.
Estética e Referências Brasileiras
Em vez do tradicional sapateado inspirado na Broadway, Farjalla adotou a catira, manifestação popular brasileira marcada pelo ritmo dos pés e das palmas. Os figurinos e a maquiagem bebem da palhaçaria, e a encenação assume referências do teatro popular e da cultura afro-brasileira.
Farjalla incorporou ainda músicas que não faziam parte da versão original, como "Atrás da Porta" e "Tatuagem", do repertório mais conhecido de Chico Buarque, mantendo vivo o texto escrito há quase meio século.
Informações Práticas
Com patrocínio da Petrobras, a "Ópera do Malandro" ficará em cartaz de 6 a 30 de agosto, de quinta a domingo, no Teatro Multiplan, no VillageMall. Os ingressos, comprados na bilheteria ou via Sympla, custam entre R$ 25 (meia) e R$ 350.
