Sentença condena organizadores de esquema de exploração sexual em São Paulo
A Justiça Federal condenou a 17 anos e 6 meses de prisão em regime fechado o coach norte-americano Mark Thomas Firestone e o brasileiro Fabrício Marcelo Silva de Castro Junior. Os dois foram responsabilizados por orquestrar um esquema sofisticado de exploração sexual disfarçado de consultoria de desenvolvimento pessoal durante eventos realizados no bairro do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo.
Como funcionava o esquema criminoso
As investigações apontaram que os réus utilizavam o selo "Millionaire Social Circle" para atrair estrangeiros dispostos a pagar por supostas técnicas de conquista. Na prática, o grupo organizava recepções e jantares de luxo no Morumbi, onde mulheres eram submetidas a situações de abuso sob o pretexto de integração social e experiências exclusivas.
Segundo a sentença obtida pelo G1, o esquema utilizava promessas de ascensão social e vínculos afetivos para induzir jovens a um cenário de exploração planejado. Importante destacar que o crime foi configurado mesmo na ausência de transações financeiras diretas entre as partes envolvidas.
Papéis dos acusados na operação
Durante as investigações, descobriu-se que Firestone atuava sob variados nomes falsos como instrutor do curso, enquanto Fabrício Junior gerenciava a estrutura logística, sendo responsável pelo aluguel da propriedade e contratação da equipe de serviço. O juiz Caio José Bovino Greggio, da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo, ressaltou que a operação era transnacional e agia com "ardil" para vitimar ao menos sete mulheres identificadas no processo.
Detalhes da condenação e medidas adicionais
Além do tempo de reclusão, foi estipulado para os dois envolvidos o pagamento de 24 dias-multa. O brasileiro permanecerá detido preventivamente para evitar o risco de fuga, enquanto o cidadão americano obteve o direito de recorrer da decisão em liberdade. Um terceiro envolvido, o chinês Ziqiang Ke, teve seu processo separado e suspenso, pois não foi localizado pelas autoridades.
Cronologia do caso e investigação
O episódio ganhou visibilidade em 2023, após uma das participantes identificar sua imagem em registros do evento e denunciar o ocorrido à Polícia Civil. O inquérito revelou que as brasileiras eram tratadas como "cobaias" em aulas práticas de sedução, sem saberem que estavam sendo usadas como material didático para os alunos de Mike Pickupalpha e David Bond, pseudônimos utilizados pelos envolvidos.
A dupla comandava o chamado "Millionaire Social Circle" e oferecia cursos que custavam entre US$ 12 mil a US$ 50 mil. O pacote incluía viagens a diversos países do mundo em que os alunos eram levados a "aulas práticas" de conquista. Outras edições já aconteceram na Costa Rica, Colômbia e Filipinas.
Como as vítimas eram atraídas
Muitas das vítimas foram atraídas por meio de anúncios em plataformas digitais ou convites em aplicativos de relacionamento, acreditando tratar-se de festas exclusivas e legítimas. A repercussão do caso mobilizou o Ministério Público e a Secretaria de Segurança Pública, culminando no indiciamento que agora resulta na condenação em primeira instância pela esfera federal.
O inquérito policial foi aberto no 34º DP (Vila Sônia), depois que uma vítima, de 27 anos, se reconheceu em imagens divulgadas da festa e registrou o boletim de ocorrência pela Delegacia Eletrônica. O caso foi investigado como "favorecimento de prostituição" ou outra forma de "exploração sexual", que inclui agenciar, aliciar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher para exploração sexual.
Posicionamento dos acusados e suas defesas
Na época do indiciamento, Mike Pickupalpha ironizou publicamente: "Fizemos a maior festa do Brasil e as feministas não puderam lidar com isso". Ele ainda atacou uma das mulheres que gravou vídeo na festa, dizendo ser uma "garota feia e gorda". "As mulheres atraentes nos defenderam. Nos vídeos da festa, todos estão sorrindo", disseram os acusados.
A defesa de Fabrício Marcelo Silva de Castro Júnior afirmou que "as provas do processo não demonstram nenhum ato criminoso". O advogado Nairo Bustamante Pandolfi declarou que pretendem recorrer da decisão. Por sua vez, a defesa de Mark Thomas Firestone recebeu a decisão "com inconformismo" e apontou supostas fragilidades nos fundamentos da condenação, informando que adotará medidas recursais para integral reforma da sentença.
