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Julgamentos que Entraram para a História: 274 Anos de Justiça no Rio em Novo Livro do TJRJ

Livro do TJRJ revela 15 julgamentos históricos de 274 anos da Justiça fluminense, desde furto de cavalo em 1719 até Chacina da Candelária em 1993.
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Amanda Clark

Uma Jornada Pela História da Justiça Fluminense

O Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) lança em breve uma obra fascinante que reúne 15 casos emblemáticos que moldaram a história do sistema judiciário fluminense. Intitulado "Julgamentos que entraram para a História", o livro percorre nada menos que 274 anos de decisões que refletem as transformações sociais, políticas e culturais do Brasil e do estado do Rio de Janeiro.

A publicação apresenta uma verdade fundamental: a Justiça não segue uma estrada reta. Ao contrário, redesenha-se constantemente acompanhando as mudanças da sociedade. Desde o prosaico furto de um cavalo em Paraty, ocorrido na primeira metade do século XVIII, até casos contemporâneos que mobilizaram a opinião pública como o assassinato da atriz Daniella Perez e a Chacina da Candelária na década de 1990, cada processo narrado revela como o país evoluiu legalmente.

Escravidão e Injustiça: O Caso de Manoel Congo

Um dos capítulos mais reveladores do livro aborda a insurreição liderada por Manoel Congo em 1838, na cidade de Paty do Alferes, no Vale do Café. Aproximadamente uma centena de escravizados revoltaram-se contra suas condições, e 16 deles foram enquadrados no crime de "insurreição" conforme o Artigo 113 do Código Criminal de 1830.

O processo expõe as profundas injustiças do sistema judiciário da época. Manoel Congo permaneceu 15 dias encarcerado sem direito a um defensor. Os depoentes, todos homens brancos, ofereceram versões consistentes acusando os réus. A sentença foi brutal: Manoel foi enforcado em praça pública em 6 de setembro de 1839, enquanto outros sete escravizados receberam 650 açoites, aplicados em doses de 50 por dia, além de serem condenados a usar gonzo de ferro no pescoço durante três anos.

É impressionante observar a transformação legal ocorrida 150 anos depois. Em 1988, a Constituição Federal brasileira passou a considerar o racismo crime "inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão". Essa evolução ilustra como a Justiça acompanha os valores de cada período histórico.

Violência Contra a Mulher: O Julgamento de Doca Street

Na década de 1970, o Brasil acompanhava atentamente o julgamento de Doca Street pelo assassinato de sua companheira, Ângela Diniz. O crime ocorreu em Búzios no dia 30 de dezembro de 1976, quando ela recebeu quatro tiros no rosto após decidir terminar o relacionamento.

O primeiro julgamento, realizado três anos depois na Comarca de Cabo Frio, representou um retrato perturbador da tolerância social à violência de gênero. A defesa alegou "legítima defesa da honra", tese que prevaleceu nos votos. Por margem apertada de quatro votos a três, Doca foi condenado apenas por homicídio culposo com suspensão condicional da pena. Ele saiu do tribunal pela porta da frente sob aplausos de apoiadores.

A indignação pública foi imediata e generalizada. O Ministério Público recorreu, e em novo julgamento realizado em 1981, Doca Street foi finalmente condenado a 15 anos por homicídio qualificado. Subsequentemente, surgiram leis importantes como a Maria da Penha. Em 2023, o Supremo Tribunal Federal tornou inconstitucional a tese da "legítima defesa da honra", marcando uma vitória definitiva contra essa argumentação arcaica.

Outros Casos Históricos

O livro aborda ainda diversos outros processos significativos, incluindo o Levante Tenentista de 1922 no Forte de Copacabana, o polêmico caso de Febrônio Índio do Brasil, considerado o primeiro serial killer brasileiro, e o Crime da Rua Tonelero de 1954, que desencadeou uma grave crise política resultando no suicídio do presidente Getúlio Vargas.

A Chacina da Candelária de 1993 representa um dos casos mais chocantes documentados, envolvendo o assassinato de oito crianças e jovens entre 10 e 19 anos no centro do Rio, com três policiais militares sendo condenados pelo crime.

Preservação da Memória Judiciária

Segundo o desembargador Ricardo Couto de Castro, presidente do TJRJ, a publicação serve ao propósito essencial de "preservar a memória, dar acesso a ela e mostrar como um tribunal julga". Essa perspectiva histórica permite análises mais profundas dos julgamentos e compreensão de suas representações sociais.

O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, assina a apresentação do livro, afirmando que o presente do Poder Judiciário brasileiro é herdeiro de longa experiência que ultrapassa o período republicano, estendendo-se pela era imperial e períodos anteriores. A publicação não apenas presta contas à história, mas oferece lições valiosas para o presente.

A obra resultou de pesquisa colaborativa realizada por 15 pesquisadores especializados, cada qual contribuindo um capítulo distinto, garantindo qualidade acadêmica e rigor histórico na documentação desses casos que definiram a trajetória da Justiça no Rio de Janeiro.

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