O iFood informou que mais de 1,3 milhão de pedidos foram pagos de forma parcelada na plataforma entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. É mais que o dobro do volume registrado nos três meses anteriores, e o número reacendeu um debate nas redes sociais. Para uma parte dos usuários, o crescimento do parcelamento é reflexo do aperto no orçamento das famílias, que passaram a recorrer ao crédito até para pagar o jantar de sexta-feira. Para outros, é só mais uma opção de pagamento à disposição de quem prefere organizar as contas do mês.
Como funciona o parcelamento no app
O recurso é operado pelo iFood Pago, a fintech de pagamentos da empresa. Começou a valer em setembro de 2025, mas só para pedidos de mercado e farmácia. Entre setembro e novembro, a ferramenta somou mais de 500 mil pedidos, resultado que levou o iFood a expandi-la para todas as categorias do aplicativo, incluindo comida, a partir de 6 de dezembro.
Com a mudança, o volume de pedidos parcelados saltou dos 500 mil para 1,3 milhão em apenas dois meses. A modalidade aceita os cartões Visa, Mastercard, Elo, American Express e Hipercard, com divisão em até seis vezes, sempre com juros. Em testes feitos por comparadores de cartão de crédito, as taxas variaram de cerca de 3,5% ao mês no parcelamento em duas vezes a mais de 8% ao mês em seis vezes.
A defesa do iFood
Em nota, a diretora de Pagamentos do iFood Pago, Thaís Redondo, descreveu o parcelamento como um hábito já consolidado entre os brasileiros para equilibrar o caixa mês a mês, e disse que trazer essa opção para dentro do aplicativo devolve ao cliente mais liberdade para escolher quando pagar. A empresa também recorre a números da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) para sustentar o argumento: no terceiro trimestre de 2025, o cartão de crédito movimentou R$ 794,7 bilhões no país, alta de 15,2% sobre o ano anterior, e o parcelamento sem juros respondeu por 42,7% de todo o valor transacionado.
O outro lado: aperto no orçamento
Nas redes, porém, muitos usuários leem o crescimento da modalidade como sintoma do momento financeiro das famílias, e há dados recentes que sustentam essa leitura. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, feita mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio, cerca de 80% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em janeiro de 2026, o maior patamar da série histórica iniciada em 2010. Um levantamento da Serasa com o Instituto Opinion Box, com entrevistas no mesmo período, encontrou um retrato parecido: só duas em cada dez pessoas conseguem fechar as contas do mês sem passar por aperto. Em março, o preço da cesta básica subiu em todas as capitais pesquisadas pelo Dieese. São Paulo ficou em primeiro lugar, com valor médio de R$ 883,94.
Atenção aos juros
O parcelamento tem usos razoáveis: pedidos grandes, para grupos, ou combinados com cupons de desconto acima de 10%, que ajudam a compensar o custo dos juros. O problema é o uso no dia a dia. Dividir uma pizza ou um lanche em três ou quatro vezes gera parcelas pequenas, quase invisíveis na fatura, mas que se somam e deixam a refeição mais cara do que se tivesse sido paga à vista.
O iFood não informou até onde pretende levar a oferta de crédito dentro do aplicativo. Mas a empresa já sinalizou a intenção de ampliar os serviços financeiros do iFood Pago para consumidores e restaurantes parceiros, o que deve manter o parcelamento de refeições no centro da conversa nos próximos meses.
